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"Há uma necessidade de políticas mais eficientes de divulgação de leitura."

A escritora e tradutora carioca Adriana Lisboa, surgiu no cenário literário em 1999 com o livro Os Fios da Memória (Rocco). Por seu livro Sinfonia em Branco (Rocco, 2001) recebeu o Prêmio Literário José Saramago e em 2005 estreou na literatura infantil com Língua de Trapos (Rocco Jovens Leitores). Com uma narrativa inteligente, Adriana Lisboa, alcançou uma posição de destaque na cultura brasileira. A autora conversou conosco sobre educação, política e, é claro, sobre literatura.

CL - Você é escritora, tradutora, cantora, instrumentista e professora. Qual sua relação com todas
essas atividades atualmente ?


Eu já não trabalho com música há quase dez anos. Sou formada em flauta, trabalhei desde cedo (desde os 18 anos, quando cantava MPB num bar brasileiro na França) nessa área, inclusive como professora de flauta e de teoria musical, mas atualmente só trabalho com literatura. Escrevendo e traduzindo.

CL - Em seu livro Um beijo de Colombina, há uma “conversa” com Manuel Bandeira. Na primeira página
de seu site pessoal há uma intertextualidade com Carlos Drummond de Andrade – “No meio do caminho
tinha uma pedra (...)”. De que forma a leitura dos chamados cânones contribui com a construção da sua obra ?


Não sei se usaria a palavra "cânones". Tenho as minhas leituras do coração, que não sei se são canônicas, e certamente que todas contribuem em algum nível para o que escrevo. Um escritor é, antes de mais nada, um leitor. O que me levou a escrever foi fundamentalmente o prazer da leitura. E gosto da intertextualidade, do movimento da reescritura e da citação. "Conversei" com Manuel Bandeira, atualmente "converso" com poetas japoneses...

CL - Além dos autores consagrados, quem você lê ? Há alguma(s) boa(s) revelação(ões) no
cenário literário brasileiro ?


Nossa, há muitas, vivemos um momento bastante fértil! Entre os nomes já estabelecidos, gosto muito do João Anzanello Carrascoza, do Luiz Ruffato, da Cíntia Moscovitch, e, entre os mais novos, alguns estreando, outros já seguindo para o segundo ou terceiro livro, Marcelo Moutinho, Tatiana Salem Levy, Cecilia Giannetti, Claudia Lage, Paloma Vidal, João Paulo Cuenca, Tércia Montenegro. Há gente muito boa escrevendo, publicando ou começando a publicar.

CL - Que peso têm, no seu processo de criação, todas as teorias que você conheceu
durante sua vida acadêmica ?


Eu sou a favor da reflexão sobre o que fazemos. Não acredito numa escrita inocente. Nesse sentido, as teorias foram e são importantes. Não como manuais, ou como fórmulas, porque ao mesmo tempo acredito na espontaneidade e na autenticidade, mas como instrumentos de reflexão.

CL - Barthes, em seu estudo "A Morte do Autor", ressalta a questão da não existência do autor fora
ou anterior à linguagem. Para ele um escritor será sempre o imitador de um gesto ou de uma palavra
anteriores a ele, mas nunca originais, sendo seu único poder mesclar escritas. Já, Saramago coloca
o autor como primeira instância entre a obra e o leitor.
Como você se posiciona em relação a essa discussão ? Em que medida o autor está presente
naquilo que escreve ?


Começo citando Mario Quintana: "Convivência entre o poeta e o leitor, só no silêncio da leitura a sós. A sós, os dois. Isto é, livro e leitor." Eu me aproximo muito mais de Barthes do que de Saramago, nesse aspecto. Penso que a existência do autor fora da linguagem, se não for impossível, é, no mínimo, irrelevante. Mas há dois aspectos aí: existe um autor ficcionalizado dentro daquilo que escreve, quer ele se assuma em autobiografia, quer não. Isso é parte da argamassa do texto. Estou presente, como autor ou autora, naquilo que escrevo, ainda que discorra sobre o imperador romano Adriano. E existe um autor físico, vivendo no mundo, falando sobre o que faz. Esse autor é apenas mais um leitor da própria obra - um leitor privilegiado, sim, mas um leitor com os limites que têm todos os leitores. Nem sempre o autor é o melhor comentarista de sua própria obra. Aliás, raramente é.

CL - Língua de trapos, lançado em 2005, é deliciosamente poético e dirigido ao público infantil. Como
as crianças responderam à obra ? As crianças, na sua opinião, gostam de poesia ?


As crianças são os críticos mais sinceros e confiáveis. Recentemente terminei um texto infantil, mostrei para o meu filho de 8 anos e ele me disse: não entendi nada. Imediatamente, claro, eu soube que teria que reescrever o texto. Quanto ao Língua de trapos, talvez tenha sido o livro que até o momento me deu maior satisfação. Fiz uma leitura dele no último Salão da FNLIJ, por exemplo, e vi que as crianças que me ouviam estavam ligadas, empolgadas, do contrário não teriam a menor cerimônia em levantar e me dar as costas no meio de uma frase. Creio que as crianças não se importam muito com o fato de o texto estar em verso ou em prosa, elas vão acompanhando as palavras e o significado das palavras e construindo imagens - o texto agrada ou não independentemente do formato.

CL - Há, em nosso país, um evidente desequilíbrio econômico e cultural. Como facilitar, aos menos
privilegiados, o acesso aos livros (e à cultura de um modo geral) ?


Há uma necessidade de políticas mais eficientes de divulgação de leitura. As pequenas feiras e festas literárias costumam trazer bons resultados, mas não bastam. O desenvolvimento do hábito de se freqüentar bibliotecas e a existência de boas bibliotecas também pesa. Mas é claro que a desigualdade no acesso à cultura só se resolve, no Brasil, com uma reforma do ensino fundamental e médio. Uma questão de prioridades. Não adianta estabelecer cotas nas universidades federais e estaduais e manter crianças e adolescentes numa rede pública de ensino sucateada. Ler livros parece um luxo. Há que se formar cidadãos pensantes desde muito cedo, e não simplesmente maquiar o problema (gravíssimo) da educação no Brasil lá adiante.

CL - Como você analisa a relação entre a mídia, em especial a tv, a Internet, e a literatura ?

A literatura certamente que mudou de status com o advento da mídia e da internet, e isso não é necessariamente bom ou ruim. Há que se trabalhar numa convivência desses meios. Muitos autores trazem a linguagem da mídia para os seus textos. Outros se valem da mídia para veicular seus textos. De todo modo, vivemos no século XXI e esse passo já foi dado. Contudo, ainda que pensemos numa maior liberdade de criação e numa multiplicação de possibilidades formais, ainda não resolvemos (e estamos longe de resolver) o problema da exclusão.

CL - O escritor(a) “fala” de um lugar privilegiado. Ele(a) deve usar essa posição para
participar dos debates que envolvem a sociedade atual ?


O poema, dizia Paulo Leminski, é um inutensílio. Estendo essa máxima à literatura de ficção de modo geral. A literatura não existe "para." Há algo de prioritário em todas as artes, e na literária também, que é o trabalho com a matéria-prima - seja ela a argila, o mármore, a tinta, o som ou a palavra. Se a arte participa ou não dos debates sociais, é algo a ser determinado pelo tempo em que se vive. Em época de censura dos meios de comunicação, como no Brasil dos anos 70, a arte acaba assumindo para si o papel de debatedora dos assuntos que envolvem a sociedade. Em outros momentos, pode se revestir de uma maior liberdade temática sem ter de ser necessariamente taxada de "alienada", desde que, naturalmente, respeite certos princípios éticos. De um modo ou de outro, estamos falando daquilo que é humano. É isso o que faz a boa arte, a boa literatura, não necessariamente com o mesmo foco.

CL - Quais são seus projetos literários em andamento e futuros ?

Estou trabalhando num romance que sairá em meados de 2007, sobre o poeta japonês Matsuo Bashô. Tenho também um livro de contos sendo organizado, recolhendo contos esparsos meus publicados em antologias e outros inéditos, além de alguns projetos para crianças (esta área me interessa muito e cada vez mais, achei delicioso escrever e publicar para crianças).

CL - Para quem pretende ser escritor, você poderia dar algumas dicas ?

Ser escritor no Brasil não é algo muito simples. Além da pouca leitura dentro do nosso país, temos certa dificuldade de penetração fora dele se não nos enquadramos no rótulo de "exóticos" - e o exótico brasileiro hoje em dia não é mais a Bahia de Jorge Amado, mas a realidade das favelas, do tráfico, da violência urbana. Há que se lutar contra esse estereótipo e privilegiar as vozes dissonantes, há que se mostrar que não é só isso o que temos por aqui. Por isso, se posso dar alguma dica, é a de que cada um procure sua voz pessoal, sem emular tal ou tal autor porque tem visibilidade. Isso requer uma dose muito grande de humildade, de sinceridade e de coragem. Além disso, ou antes disso, é claro: ler, ler muito, ler sempre. Mas imagino que alguém que quer ser escritor já faça isso.

 

                                                         [POR: Eduardo Cruz Filho]

 

Para saber mais sobre Adriana Lisboa, consulte a página: ESCRITORES.


 
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