CL
- Você é escritora, tradutora, cantora, instrumentista
e professora. Qual sua relação com todas
essas atividades atualmente ?
Eu já não trabalho com música há quase
dez anos. Sou formada em flauta, trabalhei desde cedo (desde os
18 anos, quando cantava MPB num bar brasileiro na França)
nessa área, inclusive como professora de flauta e de teoria
musical, mas atualmente só trabalho com literatura. Escrevendo
e traduzindo.
CL - Em seu livro Um beijo de Colombina, há
uma “conversa” com Manuel Bandeira. Na primeira página
de seu site pessoal há uma intertextualidade com Carlos
Drummond de Andrade – “No meio do caminho
tinha uma pedra (...)”. De que forma a leitura dos chamados
cânones contribui com a construção da sua
obra ?
Não sei se usaria a palavra "cânones".
Tenho as minhas leituras do coração, que não
sei se são canônicas, e certamente que todas contribuem
em algum nível para o que escrevo. Um escritor é,
antes de mais nada, um leitor. O que me levou a escrever foi fundamentalmente
o prazer da leitura. E gosto da intertextualidade, do movimento
da reescritura e da citação. "Conversei"
com Manuel Bandeira, atualmente "converso" com poetas
japoneses...
CL - Além dos autores consagrados, quem você
lê ? Há alguma(s) boa(s) revelação(ões)
no
cenário literário brasileiro ?
Nossa, há muitas, vivemos um momento bastante fértil!
Entre os nomes já estabelecidos, gosto muito do João
Anzanello Carrascoza, do Luiz Ruffato, da Cíntia Moscovitch,
e, entre os mais novos, alguns estreando, outros já seguindo
para o segundo ou terceiro livro, Marcelo Moutinho, Tatiana Salem
Levy, Cecilia Giannetti, Claudia Lage, Paloma Vidal, João
Paulo Cuenca, Tércia Montenegro. Há gente muito
boa escrevendo, publicando ou começando a publicar.
CL - Que peso têm, no seu processo de criação,
todas as teorias que você conheceu
durante sua vida acadêmica ?
Eu sou a favor da reflexão sobre o que fazemos. Não
acredito numa escrita inocente. Nesse sentido, as teorias foram
e são importantes. Não como manuais, ou como fórmulas,
porque ao mesmo tempo acredito na espontaneidade e na autenticidade,
mas como instrumentos de reflexão.
CL - Barthes, em seu estudo "A Morte do Autor",
ressalta a questão da não existência do autor
fora
ou anterior à linguagem. Para ele um escritor será
sempre o imitador de um gesto ou de uma palavra
anteriores a ele, mas nunca originais, sendo seu único
poder mesclar escritas. Já, Saramago coloca
o autor como primeira instância entre a obra e o leitor.
Como você se posiciona em relação a essa discussão
? Em que medida o autor está presente
naquilo que escreve ?
Começo citando Mario Quintana: "Convivência
entre o poeta e o leitor, só no silêncio da leitura
a sós. A sós, os dois. Isto é, livro e leitor."
Eu me aproximo muito mais de Barthes do que de Saramago, nesse
aspecto. Penso que a existência do autor fora da linguagem,
se não for impossível, é, no mínimo,
irrelevante. Mas há dois aspectos aí: existe um
autor ficcionalizado dentro daquilo que escreve, quer ele se assuma
em autobiografia, quer não. Isso é parte da argamassa
do texto. Estou presente, como autor ou autora, naquilo que escrevo,
ainda que discorra sobre o imperador romano Adriano. E existe
um autor físico, vivendo no mundo, falando sobre o que
faz. Esse autor é apenas mais um leitor da própria
obra - um leitor privilegiado, sim, mas um leitor com os limites
que têm todos os leitores. Nem sempre o autor é o
melhor comentarista de sua própria obra. Aliás,
raramente é.
CL
- Língua de trapos, lançado em 2005, é
deliciosamente poético e dirigido ao público infantil.
Como
as crianças responderam à obra ? As crianças,
na sua opinião, gostam de poesia ?
As crianças são os críticos mais sinceros
e confiáveis. Recentemente terminei um texto infantil,
mostrei para o meu filho de 8 anos e ele me disse: não
entendi nada. Imediatamente, claro, eu soube que teria que reescrever
o texto. Quanto ao Língua de trapos, talvez tenha sido
o livro que até o momento me deu maior satisfação.
Fiz uma leitura dele no último Salão da FNLIJ, por
exemplo, e vi que as crianças que me ouviam estavam ligadas,
empolgadas, do contrário não teriam a menor cerimônia
em levantar e me dar as costas no meio de uma frase. Creio que
as crianças não se importam muito com o fato de
o texto estar em verso ou em prosa, elas vão acompanhando
as palavras e o significado das palavras e construindo imagens
- o texto agrada ou não independentemente do formato.
CL
- Há, em nosso país, um evidente desequilíbrio
econômico e cultural. Como facilitar, aos menos
privilegiados, o acesso aos livros (e à cultura de um modo
geral) ?
Há uma necessidade de políticas mais eficientes
de divulgação de leitura. As pequenas feiras e festas
literárias costumam trazer bons resultados, mas não
bastam. O desenvolvimento do hábito de se freqüentar
bibliotecas e a existência de boas bibliotecas também
pesa. Mas é claro que a desigualdade no acesso à
cultura só se resolve, no Brasil, com uma reforma do ensino
fundamental e médio. Uma questão de prioridades.
Não adianta estabelecer cotas nas universidades federais
e estaduais e manter crianças e adolescentes numa rede
pública de ensino sucateada. Ler livros parece um luxo.
Há que se formar cidadãos pensantes desde muito
cedo, e não simplesmente maquiar o problema (gravíssimo)
da educação no Brasil lá adiante.
CL
- Como você analisa a relação entre
a mídia, em especial a tv, a Internet, e a literatura ?
A literatura certamente que mudou de status com o advento da mídia
e da internet, e isso não é necessariamente bom
ou ruim. Há que se trabalhar numa convivência desses
meios. Muitos autores trazem a linguagem da mídia para
os seus textos. Outros se valem da mídia para veicular
seus textos. De todo modo, vivemos no século XXI e esse
passo já foi dado. Contudo, ainda que pensemos numa maior
liberdade de criação e numa multiplicação
de possibilidades formais, ainda não resolvemos (e estamos
longe de resolver) o problema da exclusão.
CL
- O escritor(a) “fala” de um lugar privilegiado.
Ele(a) deve usar essa posição para
participar dos debates que envolvem a sociedade atual ?
O poema, dizia Paulo Leminski, é um inutensílio.
Estendo essa máxima à literatura de ficção
de modo geral. A literatura não existe "para."
Há algo de prioritário em todas as artes, e na literária
também, que é o trabalho com a matéria-prima
- seja ela a argila, o mármore, a tinta, o som ou a palavra.
Se a arte participa ou não dos debates sociais, é
algo a ser determinado pelo tempo em que se vive. Em época
de censura dos meios de comunicação, como no Brasil
dos anos 70, a arte acaba assumindo para si o papel de debatedora
dos assuntos que envolvem a sociedade. Em outros momentos, pode
se revestir de uma maior liberdade temática sem ter de
ser necessariamente taxada de "alienada", desde que,
naturalmente, respeite certos princípios éticos.
De um modo ou de outro, estamos falando daquilo que é humano.
É isso o que faz a boa arte, a boa literatura, não
necessariamente com o mesmo foco.
CL
- Quais são seus projetos literários em
andamento e futuros ?
Estou trabalhando num romance que sairá em meados de 2007,
sobre o poeta japonês Matsuo Bashô. Tenho também
um livro de contos sendo organizado, recolhendo contos esparsos
meus publicados em antologias e outros inéditos, além
de alguns projetos para crianças (esta área me interessa
muito e cada vez mais, achei delicioso escrever e publicar para
crianças).
CL
- Para quem pretende ser escritor, você poderia
dar algumas dicas ?
Ser escritor no Brasil não é algo muito simples.
Além da pouca leitura dentro do nosso país, temos
certa dificuldade de penetração fora dele se não
nos enquadramos no rótulo de "exóticos"
- e o exótico brasileiro hoje em dia não é
mais a Bahia de Jorge Amado, mas a realidade das favelas, do tráfico,
da violência urbana. Há que se lutar contra esse
estereótipo e privilegiar as vozes dissonantes, há
que se mostrar que não é só isso o que temos
por aqui. Por isso, se posso dar alguma dica, é a de que
cada um procure sua voz pessoal, sem emular tal ou tal autor porque
tem visibilidade. Isso requer uma dose muito grande de humildade,
de sinceridade e de coragem. Além disso, ou antes disso,
é claro: ler, ler muito, ler sempre. Mas imagino que alguém
que quer ser escritor já faça isso.
[POR:
Eduardo Cruz Filho]
Para
saber mais sobre Adriana Lisboa, consulte a página: ESCRITORES.