CL - Quando se trata de ensino de literatura, uma questão
sempre surge. Deve-se, ou não fazer uso de adaptações
ao abordar os cânones? Qual é a sua opinião?
As adaptações podem ajudar a despertar o interesse
pelos clássicos?
AF - Os clássicos devem ser preservados em sua integridade
textual. A adaptação pode ser feita no momento da
abordagem da obra, quando se pode ressaltar determinadas passagens,
deixando outras de lado. Com isso, pode-se dar um direcionamento
à leitura e à interpretação, de modo
a fazer com que o leitor tenha uma maior interação
com a obra, apreciando-a naqueles pontos que lhe são mais
atraentes e estimulantes. De fato, cteio que nõa se deve
mutilar uma obra literária, expurgando passagens, comente
para torná-la supostamente "mais fácil".
O interesse pelos clássicos deve ser despertado exatamente
por aquilo que essas obras representam, tanto como resgistro cultural
de uma época, como exemplo de estilo, técnica e
linguagem.
CL
- Para você (e para mim) “literatura é
uma sentença de vida; uma forma eficaz de conhecer profundamente
o ser humano”. Como escritor e professor, você acredita
que é possível “plantar” o gosto pela
leitura numa sociedade tão desequilibrada econômica
e culturalmente, sobretudo quando há uma concorrência
desigual com a mídia moderna (em especial a televisão)
?
AF - Desenvolver o gosto pela leitura não é e nunca
foi fácil. Ler é uma vocação e uma
necessidade, portanto é uma habilidade intelectual que
deve ser despertada e estimulada constantemente. Os desequilíbrios
de nossa sociedade, marcada pela exclusão e por desníveis
tão graves, a leitura deve ser ensinada, inclusive, como
uma forma de superação de diferenças. devemos
aliar o lazer da leitura à formação pela
leitura. As mídias modernas são poderosas e ocupam
o tempo que seria da leitura. Não tem jeito. É preciso
concorrer com as mídias, dando um sentido mais amplo à
leitura; ou seja, deve-se estimular a leitura de formação
do indivíduo como um cidadão pensante, crítico,
capaz de discernir as questões da vida real a partir da
leitura de situações ficcionais. A experiência
de leitura torna o indivíduo mais capaz de discutir, entender
e formular questionamentos em torno da vida, do mundo, da sociedade
e de si mesmo. A leitura é indispensável.
CL
- Em sua crônica “Presente de grego”
há uma questão que sempre surge quando a conversa
é sobre literatura: o gosto estético. Num país
cujo número de leitores é extremamente baixo (pelo
menos é o que dizem as estatísticas divulgadas),
ler um best-seller, ainda que de qualidade literária duvidosa,
não é um bom começo ?
AF
- Aleilton Fonseca - De fato, pior do que ler best-seller é
não ler livro nenhum. O que se espera é que a experiência
e a maturidade do leitor levem-no às obras de maior complexidade
semântica e estética. No entanto, há diversos
níveis de interação com o mundo e, portanto,
com as obras disponíveis. Não devemo ser impositivos
quanto à leitura dos outros no dia-a-dia. Agora, se somos
professores em aula, aí então devemos fazer escolhas
significativas para a formação dos alunos. O professor
é um interlocutor e, como tal, deve criar meios e promover
o diálogo entre a obra e o leitor em formação.
É muito difícil alguém começar a carreira
d eleitor através de Alencar, Machado de Assis, Guimarães
Rosa ou Clarice Lispector. São autores que exigem uma certa
bagagem. Os textos mais atuais, que falam de questões mais
palpáveis da vida contemporênea, podem servir de
bons pontos de partida para a formação de um leitor.
CL
- Como você analisa o cenário educacional
e/ou cultural do Brasil, após sua experiência como
professor na França ?
AF
- No Brasil, geralmente o sistema educacional é mais frouxo.
Há muitos professores que ensinam pouco e os alunos gostam
disso, pois se acostumam com a lei do menor esforço. Se
o professor não cobra muito, os alunos estudam menos. Eles
não têm medo de perder o ano, pois acabam passando
mesmo aprendendo pouco. Isso torna a educação algo
pobre, medíocre, um certo faz-de-conta. Na França,
por exemplo, percebe-se que há uma seriedade de fundo no
sistema educacional. Os programas são discutidos, há
controle efetivo do trabalho e há, sobretudo, um compromisso
social muito claro quanto à necessidade de formar bem o
cidadão, exigindo de professores e alunos um desempenho
satisfatório. Há mais cobrança, há
mais rigidez na relação professor- aluno, há
mais presença institucional do Estado.
CL
- O que as instituições de ensino, sobretudo
as universidades, deveriam ensinar sobre literatura e não
o fazem ?
AF
- Deveriam ensinar a literatura como arte da palavra que atua
duplamente, formando o lado cognitivo e o lado afetivo do indivíduo.
É preciso aproximar a literatura do dia-a-dia do aluno,
fazê-lo perceber e acompanhar a existência da literatura
e dos escritores na vida cotidiana, interessando-se pela atualidade
dos livros, dos lançamentos, das novidades editoriais.
Literatura deveria ser um assunto normal do dia-a-dia, como parte
da vida de todos os cidadãos.
CL
- Gostaria de fazer a mesma pergunta que, há algum
tempo, você fez à poetisa Yêda Schmaltz: Ser
professor e escritor no Brasil é problema ou solução?
AF
- Um ofício complementa o outro; não ajuda nem atrapalha
necessariamente. Por outro lado, um professor que escreve é
um testemunho vivo da existência do escritor como cidadão
comum, ao alcance das pessoas. O escritor que leciona tem a oportunidade
de conviver mais de perto com leitores, com pessoas que podem
ajudá-lo a ver certas coisas no texto literário,
pela ótica do leitor.
CL
- Que peso a crítica literária exerce em
seu processo de criação ?
AF
- Normalmente, o escritor acompanha a crítica, naturalmente,
como forma de ter um retorno de leitura. Mas, no fundo, ao fazer
sua obra, ele não vai simplesmente se direcionar pela crítica.
O escritor dever estar convicto de um projeto literário
que deseja desenvolver. A crítica nem sempre acerta, seja
nos elogios, seja nas restrições a um autor.
CL
- Há em seus contos, os presentes em Jaú
dos bois são um bom exemplo, um casamento bem sucedido
entre conteúdo e forma. Esse resultado é algo natural,
ou você trabalha essa técnica ?
AF
- Em criação literária nada acontece de graça.
Para tudo é preciso muito trabalho, muita dedicação
e muito cuidado. Literatura é trabalho, é busca,
é aprendizagem constante. No meu trabalho, eu traço
um objetivo em torno dos efeitos de leitura que tornarão
o texto mais expressivo, mais tocante e comunicativo. Em torno
disso, estabeleço a forma como o enredo vai fluir, como
as revelações serão feitas, como as informações
serão dosadas. Tudo isso é feito por respeito ao
leitor e à literatura. Em literatura, a espontaneidade
é inimiga da perfeição. O autor deve estar
consciente de cada passo que dá em seu texto, na busca
de um diálogo mais expressivo com os leitores.
CL
- Sua obra mais recente, Nhô Guimarães, é
uma homenagem ao grande escritor Guimarães Rosa. Fale um
pouco sobre a importância de Guimarães e Grande Sertão:
Veredas para o cenário literário brasileiro.
AF
- O escritor mineiro Guimarães Rosa está entre os
autores mais importantes da língua portuguesa. Sua proposta
de narrativa é inovadora, pois ele toma a tradição
da oralidade e elabora uma linguagem complexa, tão rica
de sentidos quanto bela na sua forma exuberante. Grande sertão:
veredas é, talvez, o romance mais importante da moderna
literatura brasileira. Sua concepção, sua linguagem,
seus temas, sua profundidade, tudo isso nos enriquece culturalmente.
CL
- O escritor brasileiro conta com algum tipo de apoio
do poder público no momento de publicar e divulgar sua
obra ? Como funciona esse processo ?
AF
- Há algumas iniciativas oficiais, através de coleções,
concursos, mas é tudo muito tímido e insatisfatório.
No Brasil, o escritor, em geral, fica jogado ao léu da
sorte, tendo de brigar por um lugar ao sol, num mercado altamente
restritivo. Como a massa de leitores é ainda muito pequena
para sustentar a produção editorial, muitas vocacionados
para a escrita desistem ou não desenvolvem plenamente seu
potencial, pois têm de se dedicar a outras atividades para
sobreviver. Prova disso é que ainda é raro encontrar
escritores que vivem profissionalmente de sua produção
literária. Em geral, a criação literária
é coisa das horas vagas, das noites insones, da teima mesmo
dos que se sentem compelidos a escrever por uma necessidade íntima
muito forte. Mas, geral, ainda paira no ar uma idéia difusa
de que escrever literatura é uma "perda de tempo",
tempo que o indivíduo poderia empregar em algo mais "rentável".
CL
- Quais as suas expectativas em relação
ao panorama literário brasileiro ?
AF
- Quem escreve deve ter esperança de que o panorama melhore,
que os leitores aumentem, que a cultura do livro se desenvolva,
que as pessoas não tenham pena de gastar algum dinheiro
comprando livro. Há sinais de melhora, mas isso demanda
tempo; toda mudança de hábito cultural é
lento e precisa ser estimulado. Cabe á escola dizer ao
aluno que ler faz parte de sua condição de ser pensante
e de cidadão.
CL
- Para quem quer se tornar escritor, que dicas você
poderia dar ?
AF
- Primeiro ler muito, ler poesia, ficção, ensaio,
ensaios de divulgaação científica, sobretudo
no campo das ciências humanas. E viver, buscar a experiência
da vida. E, ainda, refletir se escrever é mesmo uma necessidade.
Após isso, verificar se tem algo realmente significativo
a dizer, e se sabe escrever bem, com consciência do que
está fazendo. Não há curso que forme um escritor,
mas, ao mesmo tempo, nenhum escritor nasce feito. Eis a questão.
[
POR: Eduardo Cruz Filho ]