CL – Você foi citada, em várias oportunidades,
como uma autora polêmica, transgressora. Alguns de seus
livros provocam reflexões sobre, por exemplo, a sexualidade
feminina e a luta da mulher pela sobrevivência num mundo
essencialmente machista. Qual é o propósito da abordagem
desses temas ?
JC – Ser mulher é um ato político. Não
basta nascer mulher. O acaso genético não referenda
ninguém como mulher. Portanto, trata-se de uma opção.
Uma condição voluntária. Para isso é
necessário ser absolutamente livre, pois acorrentadamente
nenhuma opção é válida.
Desde muito pequena costumava protestar a respeito da injustiça
das línguas latinas quanto a predominância de gênero,
o gênero masculino. É regra do bem falar que, estando
1 homem e 5485 mulheres numa platéia, o orador deva tratá-los
como: meus senhores. Na minha cabeça de criança
isso não fazia o mínimo sentido. E ainda acho que
não faz, mas a cabeça de adulto é mais tolerante
com incoerências e injustiças.
Fora isso, aqueles ridículos chavões também
me revoltavam: menina não joga bola, menina faz comidinha.
Menina não pode sair sozinha, tem que levar o irmão.
Menina precisa estudar matemática para quando crescer poder
fazer as contas do supermercado. Acho que foi por isso que nunca
aprendi raiz quadrada. Se era assim, pra que? Não via a
mínima serventia nisso.
E foi a partir dessas pequenas coisas com grandes conseqüências,
que eu trouxe para minha narrativa reflexões sobre o atraso
de vida carregado por uma sociedade machista. É um jogo
que ninguém está satisfeito, nem homens nem mulheres.
Interessa apenas aqueles que se beneficiam com o atraso. Aquele
punhadinho de gente que manda e desmanda num turbilhão
de gente.
Quanto a ser polêmica e transgressora, é porque não
poderia ser diferente, sendo assim como sou. Não igual.
CL
– Certa vez você fez a seguinte afirmação:
“Não tenho leitores, tenho co-autores de meus livros”.
Fale-nos um pouco sobre essa relação entre escritor(a)
e leitor(a). Como, durante o processo de criação,
o(a) autor(a) pensa o(a) leitor(a) ?
JC – Comecemos pelo fim: durante o processo de criação
não se pensa em nada. O processo de criação
é um estado de beatitude. Um fim em si mesmo. Assim como
a prática da meditação, não objetiva
nada. Não racionaliza nada, muito menos a satisfação
do leitor.
Quero dizer, no entanto, que o leitor é meu co-autor porque
o livro é uma proposta interativa. Assim, mesmo concluído
e publicado, ele ainda está pela metade. A tarefa só
se completa quando o livro é aberto e lido, e acrescentado,
e polemizado, e refletido, e conceituado. Invadido e apossado.
Sei disso. Sou leitora e escritora. Opero em mão dupla,
privilegiadamente.
Donde se conclui que livro sem leitor não é livro,
é projeto.
CL
– Algumas pesquisas têm mostrado dados contraditórios
sobre o número de brasileiros que se interessam pela literatura.
Nesse sentido, o que aponta sua experiência literária
? O brasileiro lê, ou não lê?
JC – Ele lê se alcançar um livro. O brasileiro
quer ler. Tem esse desejo como o sonho da casa própria,
ou o sonho de ver os filhos diplomados. Mas é um sonho
inacessível como são a maioria dos sonhos brasileiros.
Aproveito para contar uma experiência: Recentemente arrumei
minha biblioteca, separando os títulos que queria conservar
e os que não queria mais guardar. Tinha muito livro repetido
e muito livro que eu não precisava mais. E após
examinar um por um, cataloguei os que iam ficar e enchi quatro
caixas enormes com aqueles que não me serviam, mas que
poderiam servir para outras pessoas. Eram uns oitocentos, esses.
Fiquei pensando se os venderia para um sebo. Decidi que não,
pois daria uma mão de obra enorme oferecê-los, negociar,
transportá-los para receber dez reais como pagamento. Por
outro lado, pensei em doá-los para uma biblioteca. Mas
as grandes bibliotecas não aceitam livros usados, e as
pequenas querem que até o transporte seja por conta do
doador. Transportar ou remeter quatro caixas enormes de livros
é impossível.
Daí me lembrei de uma campanha que eu havia liderado, por
ocasião do primeiro aniversário do ataque de 11
de setembro às torres gêmeas. Na ocasião propus
que se fizesse um atentado do bem, abandonado livros em locais
públicos – metrô, ônibus, bancos de praça,
supermercados, cinema etc. – para dividir com outras pessoas
o luxo de ler.
Essa campanha foi vitoriosa, visto que possuo um mailing eletrônico
astronômico, e que as pessoas se empolgaram e repassaram
a mensagem para seus próprios mailings, divulgando a proposta
em progressão geométrica. Foi total sucesso e deu
até no fantástico.
Pois bem. Resolvi repetir a dose e abandonar esses oitocentos
livros em locais públicos. Antes mandei fazer um carimbo
escrito: doação da escritora Joyce Cavalccante www.joycecavalccante.com
– carimbei todos.
E minha secretária, minha empregada, meu dentista e a mulher
dele, mais duas vizinhas me ajudaram. Em um mês distribuímos
todos os livros. Foi um arraso. Dava gosto de ver a alegria das
pessoas quando achavam os livros casualmente. Muitos me deram
retorno agradecendo, pois podiam se comunicar comigo por meio
de minha web page carimbada nos livros. Foi uma experiência
riquíssima. Pretendo repetí-la sempre que tiver
livros disponíveis.
Com isso conclui que o brasileiro gosta de ler. Basta ter acesso
ao livro que se sente feliz. Isso não é o máximo?
CL
– Há uma discussão sobre os “rumos”
que a juventude tem dado à sua vida. Especialistas afirmam
que a falta de paradigmas tem empurrado essa juventude para a
religião, para o crime, etc. A literatura pode interferir
nesse processo ?
JC- Tudo converge para transformar os seres humanos em simples
massa de manobra. Principalmente a juventude, para que se garanta
um futuro com pessoas sem vontade ou opinião própria.
É triste mas é verdade. Sonega-se o hábito
de ler da população, para que ninguém aprenda
a pensar.
A leitura é o recurso completo para aguçar a percepção
e a inteligência, pois é o único meio que
utiliza os cinco sentidos igual e simultaneamente. Adicionalmente
tem a capacidade de reorganizar as ondas cerebrais, estimulando
assim os peptídeos que ocorrem no cérebro, na hipófise
e outros tecidos do corpo humano, capazes de produzir ação
antálgica prolongada, as chamadas endorfinas, sem as quais
morreríamos de dor física e psicológica devido
a depressão e a angústia.
É
justamente a depressão e a angústia que atiram os
jovens às drogas, ao crime ou ao inverso que, no caso,
é à religião.
Eu posso saber se uma pessoa possui o hábito de ler ou
não em cinco minutos de conversa, sem que seja necessário
perguntar nada, pois quem lê tem uma boa memória,
um olhar mais brilhante, um vocabulário mais diversificado
e um poder de argumentação maior. Quem lê
sabe escolher. Quem lê sabe se defender. A literatura faz
a diferença. Até pelo modo de andar dá pra
perceber quem lê e quam não lê.
CL
– O livro, no Brasil, é um produto caro.
O acesso à cultura em nosso país é difícil.
O que fazer para melhorar esse quadro ?
JC – O livro não é caro. Essa frase é
um dos muitos clichês que se propagam justamente para afastar
as pessaos da leitura. Dizendo que o livro é caro, já
nem chegam perto dele porque está estabelecido que é
caro. Em relação ao nosso poder aquisitivo, o livro
brasileiro tem o mesmo preço que os outros paises. O meu
romance “Inimigas Intimas” custa 38 reais aqui no
Brasil e 32 dólares nos Estados Unidos. É um preço
equiparado ao poder aquisitivo de cada pais. Um tênis brasileiro,
modelo standard, custa 60 reais, um americano do mesmo tipo custa
60 dólares. É a mesma relação.
Precisamos é de bibliotecas, embora esteja acontecendo
um movimento significativo nesse sentido. Mas o que precisamos
verdadeiramente é de encanto. Fascinação
pelo luxo de ler.
CL
– Alguns autores(as) alegam que é muito difícil
publicar um livro no Brasil. Como se dá esse processo fora
do país ? Como, no exterior, são tratados os(as)
escritores(as) pelo mercado editorial?
JC- Em qualquer pais, pelo menos entre os países que eu
conheço, sempre tem mais cacique do que índio, ou
seja, tem muito candidato a escritor do que o planejamento das
editoras comporta. Por isso sempre vai ficar sobrando alguém.
O que se deve fazer é escrever coisas maravilhosas e lutar
para que sejam publicadas. Confiar no próprio talento.
Fazer com que leiam nossos originais. Fazer com que nos publiquem.
Não é uma loto, um jogo de sorte ou azar. As editoras
escolhem entre os melhores e fazem com que esses melhores sejam
os mais vendáveis, pois qualquer casa comercial é
obrigada a dar lucros. Não há prestígio ou
proteção. Como em tudo na vida, vence o melhor.
CL
– Como você se posiciona frente à discussão
entre lingüistas e gramáticos sobre a questão
do “português correto” ?
JC – O que é correto é correto e não
há o que discutir. Não se deve escrever errado porque
as regras gramaticais estão postas para que sejam respeitadas,
senão a incomunicabilidade estará instalada. Porém
o conceito do que é correto é muito flexível.
É suficiente para que cada escritor desenvolva um estilo
original e único, pleno de magia, sem violentar a língua
da qual se utiliza. Existem códigos gráficos a serem
utilizados como os travessões ou as aspas, para que se
reproduza o linguajar popular dentro do que é correto.
Mas não se deve ferir as regras. Afinal, são os
escritores que mantêm acesa a labareda da língua.
Adoro encostar a minha língua na língua de Camões.
O português do Brasil é genial para romancistas como
eu, porque seus recursos são ilimitados, sem agressões
ou utilização de bobagens. Veja o trecho abaixo.
É o comercinho do meu romance “O Cão Chupando
Manga”:
Ninguém deixa de chegar ao pra onde se está indo.
Guardando essa crença no coração, Zezito
desceu do ônibus para esticar as canelas que, ou curtas
ou não, há dezoito anos o levavam aonde cismava
de ir.
Não é um português ortodoxo, mas está
corretíssimo.
CL
– Fale-nos sobre o atual panorama da literatura
nacional. Há novos(as) escritores(as) que você gostaria
de destacar ?
JC – Só posso destacar que eu estou fascinada com
a riqueza da literatura feita por mulheres nesse nosso país.
Tenho a oportunidade de constatar isso no meu dia a dia frente
à REBRA-Rede de Escritoras Brasileiras, organização
da qual sou a presidente. Somos 2300 talentos, hoje. Quem quiser
tirar essa história a limpo veja a página: http://rebra.org
CL
– Quais são seus novos projetos na área
literária ?
JC – Há um monte de coisa acontecendo nessa área.
Estou em vias de lançar um livro de contos, “Longos
Trechos de Dias Líquidos”. São dez narrativas
bem extensas, quase novelas, daí os longos trechos. E todos
eles têm como cenário o mar, daí os dias líquidos.
Está lindo esse trabalho. Estou também com uma novela
juvenil, uma gracinha e um projeto infantil. Uma peça,
e a seqüência da tetralogia “O Coração
Dos Outros Não É Terra Que Se Pise”. Ufa.
CL
– Você poderia deixar alguma(s) dica(s) para
os que pretendem ser escritores(as) ?
JC- Só uma coisa a dizer: Não há escritor
que antes não seja um grande leitor. Portanto leiam, leiam,
leiam. Entre essas leituras leiam “Cartas a um Jovem Poeta”
do Rilke. Quem não lê não merece escrever.
Visite
os endereços:
www.joycecavalccante.com
www.rebra.org/autoras/2port.html
www.rebra.org
[
POR: Eduardo Cruz Filho ]