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Como ser um voluntário ?


"Ser mulher é um ato político. Não basta nascer mulher. O acaso genético não referenda ninguém como mulher. Portanto, trata-se de uma opção. Uma condição voluntária."


A romancista, contista, cronista e jornalista tem oito livros publicados e participou de várias antologias. Tem obras traduzidas e publicadas na Itália, Suécia, México e Estados Unidos." É membro do conselho diretor da RELAT-Red de Escritoras Latinoamericanas e presidente da REBRA - Rede de Escritoras Brasileiras.


CL – Você foi citada, em várias oportunidades, como uma autora polêmica, transgressora. Alguns de seus livros provocam reflexões sobre, por exemplo, a sexualidade feminina e a luta da mulher pela sobrevivência num mundo essencialmente machista. Qual é o propósito da abordagem desses temas ?

JC – Ser mulher é um ato político. Não basta nascer mulher. O acaso genético não referenda ninguém como mulher. Portanto, trata-se de uma opção. Uma condição voluntária. Para isso é necessário ser absolutamente livre, pois acorrentadamente nenhuma opção é válida.

Desde muito pequena costumava protestar a respeito da injustiça das línguas latinas quanto a predominância de gênero, o gênero masculino. É regra do bem falar que, estando 1 homem e 5485 mulheres numa platéia, o orador deva tratá-los como: meus senhores. Na minha cabeça de criança isso não fazia o mínimo sentido. E ainda acho que não faz, mas a cabeça de adulto é mais tolerante com incoerências e injustiças.

Fora isso, aqueles ridículos chavões também me revoltavam: menina não joga bola, menina faz comidinha. Menina não pode sair sozinha, tem que levar o irmão. Menina precisa estudar matemática para quando crescer poder fazer as contas do supermercado. Acho que foi por isso que nunca aprendi raiz quadrada. Se era assim, pra que? Não via a mínima serventia nisso.

E foi a partir dessas pequenas coisas com grandes conseqüências, que eu trouxe para minha narrativa reflexões sobre o atraso de vida carregado por uma sociedade machista. É um jogo que ninguém está satisfeito, nem homens nem mulheres. Interessa apenas aqueles que se beneficiam com o atraso. Aquele punhadinho de gente que manda e desmanda num turbilhão de gente.

Quanto a ser polêmica e transgressora, é porque não poderia ser diferente, sendo assim como sou. Não igual.

CL – Certa vez você fez a seguinte afirmação: “Não tenho leitores, tenho co-autores de meus livros”. Fale-nos um pouco sobre essa relação entre escritor(a) e leitor(a). Como, durante o processo de criação, o(a) autor(a) pensa o(a) leitor(a) ?

JC – Comecemos pelo fim: durante o processo de criação não se pensa em nada. O processo de criação é um estado de beatitude. Um fim em si mesmo. Assim como a prática da meditação, não objetiva nada. Não racionaliza nada, muito menos a satisfação do leitor.

Quero dizer, no entanto, que o leitor é meu co-autor porque o livro é uma proposta interativa. Assim, mesmo concluído e publicado, ele ainda está pela metade. A tarefa só se completa quando o livro é aberto e lido, e acrescentado, e polemizado, e refletido, e conceituado. Invadido e apossado. Sei disso. Sou leitora e escritora. Opero em mão dupla, privilegiadamente.

Donde se conclui que livro sem leitor não é livro, é projeto.

CL – Algumas pesquisas têm mostrado dados contraditórios sobre o número de brasileiros que se interessam pela literatura. Nesse sentido, o que aponta sua experiência literária ? O brasileiro lê, ou não lê?

JC – Ele lê se alcançar um livro. O brasileiro quer ler. Tem esse desejo como o sonho da casa própria, ou o sonho de ver os filhos diplomados. Mas é um sonho inacessível como são a maioria dos sonhos brasileiros.

Aproveito para contar uma experiência: Recentemente arrumei minha biblioteca, separando os títulos que queria conservar e os que não queria mais guardar. Tinha muito livro repetido e muito livro que eu não precisava mais. E após examinar um por um, cataloguei os que iam ficar e enchi quatro caixas enormes com aqueles que não me serviam, mas que poderiam servir para outras pessoas. Eram uns oitocentos, esses.

Fiquei pensando se os venderia para um sebo. Decidi que não, pois daria uma mão de obra enorme oferecê-los, negociar, transportá-los para receber dez reais como pagamento. Por outro lado, pensei em doá-los para uma biblioteca. Mas as grandes bibliotecas não aceitam livros usados, e as pequenas querem que até o transporte seja por conta do doador. Transportar ou remeter quatro caixas enormes de livros é impossível.

Daí me lembrei de uma campanha que eu havia liderado, por ocasião do primeiro aniversário do ataque de 11 de setembro às torres gêmeas. Na ocasião propus que se fizesse um atentado do bem, abandonado livros em locais públicos – metrô, ônibus, bancos de praça, supermercados, cinema etc. – para dividir com outras pessoas o luxo de ler.

Essa campanha foi vitoriosa, visto que possuo um mailing eletrônico astronômico, e que as pessoas se empolgaram e repassaram a mensagem para seus próprios mailings, divulgando a proposta em progressão geométrica. Foi total sucesso e deu até no fantástico.

Pois bem. Resolvi repetir a dose e abandonar esses oitocentos livros em locais públicos. Antes mandei fazer um carimbo escrito: doação da escritora Joyce Cavalccante www.joycecavalccante.com – carimbei todos.

E minha secretária, minha empregada, meu dentista e a mulher dele, mais duas vizinhas me ajudaram. Em um mês distribuímos todos os livros. Foi um arraso. Dava gosto de ver a alegria das pessoas quando achavam os livros casualmente. Muitos me deram retorno agradecendo, pois podiam se comunicar comigo por meio de minha web page carimbada nos livros. Foi uma experiência riquíssima. Pretendo repetí-la sempre que tiver livros disponíveis.

Com isso conclui que o brasileiro gosta de ler. Basta ter acesso ao livro que se sente feliz. Isso não é o máximo?

CL – Há uma discussão sobre os “rumos” que a juventude tem dado à sua vida. Especialistas afirmam que a falta de paradigmas tem empurrado essa juventude para a religião, para o crime, etc. A literatura pode interferir nesse processo ?

JC- Tudo converge para transformar os seres humanos em simples massa de manobra. Principalmente a juventude, para que se garanta um futuro com pessoas sem vontade ou opinião própria. É triste mas é verdade. Sonega-se o hábito de ler da população, para que ninguém aprenda a pensar.

A leitura é o recurso completo para aguçar a percepção e a inteligência, pois é o único meio que utiliza os cinco sentidos igual e simultaneamente. Adicionalmente tem a capacidade de reorganizar as ondas cerebrais, estimulando assim os peptídeos que ocorrem no cérebro, na hipófise e outros tecidos do corpo humano, capazes de produzir ação antálgica prolongada, as chamadas endorfinas, sem as quais morreríamos de dor física e psicológica devido a depressão e a angústia.

É justamente a depressão e a angústia que atiram os jovens às drogas, ao crime ou ao inverso que, no caso, é à religião.

Eu posso saber se uma pessoa possui o hábito de ler ou não em cinco minutos de conversa, sem que seja necessário perguntar nada, pois quem lê tem uma boa memória, um olhar mais brilhante, um vocabulário mais diversificado e um poder de argumentação maior. Quem lê sabe escolher. Quem lê sabe se defender. A literatura faz a diferença. Até pelo modo de andar dá pra perceber quem lê e quam não lê.

CL – O livro, no Brasil, é um produto caro. O acesso à cultura em nosso país é difícil. O que fazer para melhorar esse quadro ?

JC – O livro não é caro. Essa frase é um dos muitos clichês que se propagam justamente para afastar as pessaos da leitura. Dizendo que o livro é caro, já nem chegam perto dele porque está estabelecido que é caro. Em relação ao nosso poder aquisitivo, o livro brasileiro tem o mesmo preço que os outros paises. O meu romance “Inimigas Intimas” custa 38 reais aqui no Brasil e 32 dólares nos Estados Unidos. É um preço equiparado ao poder aquisitivo de cada pais. Um tênis brasileiro, modelo standard, custa 60 reais, um americano do mesmo tipo custa 60 dólares. É a mesma relação.

Precisamos é de bibliotecas, embora esteja acontecendo um movimento significativo nesse sentido. Mas o que precisamos verdadeiramente é de encanto. Fascinação pelo luxo de ler.

CL – Alguns autores(as) alegam que é muito difícil publicar um livro no Brasil. Como se dá esse processo fora do país ? Como, no exterior, são tratados os(as) escritores(as) pelo mercado editorial?

JC- Em qualquer pais, pelo menos entre os países que eu conheço, sempre tem mais cacique do que índio, ou seja, tem muito candidato a escritor do que o planejamento das editoras comporta. Por isso sempre vai ficar sobrando alguém. O que se deve fazer é escrever coisas maravilhosas e lutar para que sejam publicadas. Confiar no próprio talento. Fazer com que leiam nossos originais. Fazer com que nos publiquem. Não é uma loto, um jogo de sorte ou azar. As editoras escolhem entre os melhores e fazem com que esses melhores sejam os mais vendáveis, pois qualquer casa comercial é obrigada a dar lucros. Não há prestígio ou proteção. Como em tudo na vida, vence o melhor.

CL – Como você se posiciona frente à discussão entre lingüistas e gramáticos sobre a questão do “português correto” ?

JC – O que é correto é correto e não há o que discutir. Não se deve escrever errado porque as regras gramaticais estão postas para que sejam respeitadas, senão a incomunicabilidade estará instalada. Porém o conceito do que é correto é muito flexível. É suficiente para que cada escritor desenvolva um estilo original e único, pleno de magia, sem violentar a língua da qual se utiliza. Existem códigos gráficos a serem utilizados como os travessões ou as aspas, para que se reproduza o linguajar popular dentro do que é correto. Mas não se deve ferir as regras. Afinal, são os escritores que mantêm acesa a labareda da língua.

Adoro encostar a minha língua na língua de Camões. O português do Brasil é genial para romancistas como eu, porque seus recursos são ilimitados, sem agressões ou utilização de bobagens. Veja o trecho abaixo. É o comercinho do meu romance “O Cão Chupando Manga”:

Ninguém deixa de chegar ao pra onde se está indo. Guardando essa crença no coração, Zezito desceu do ônibus para esticar as canelas que, ou curtas ou não, há dezoito anos o levavam aonde cismava de ir.

Não é um português ortodoxo, mas está corretíssimo.

CL – Fale-nos sobre o atual panorama da literatura nacional. Há novos(as) escritores(as) que você gostaria de destacar ?

JC – Só posso destacar que eu estou fascinada com a riqueza da literatura feita por mulheres nesse nosso país. Tenho a oportunidade de constatar isso no meu dia a dia frente à REBRA-Rede de Escritoras Brasileiras, organização da qual sou a presidente. Somos 2300 talentos, hoje. Quem quiser tirar essa história a limpo veja a página: http://rebra.org

CL – Quais são seus novos projetos na área literária ?

JC – Há um monte de coisa acontecendo nessa área. Estou em vias de lançar um livro de contos, “Longos Trechos de Dias Líquidos”. São dez narrativas bem extensas, quase novelas, daí os longos trechos. E todos eles têm como cenário o mar, daí os dias líquidos. Está lindo esse trabalho. Estou também com uma novela juvenil, uma gracinha e um projeto infantil. Uma peça, e a seqüência da tetralogia “O Coração Dos Outros Não É Terra Que Se Pise”. Ufa.

CL – Você poderia deixar alguma(s) dica(s) para os que pretendem ser escritores(as) ?

JC- Só uma coisa a dizer: Não há escritor que antes não seja um grande leitor. Portanto leiam, leiam, leiam. Entre essas leituras leiam “Cartas a um Jovem Poeta” do Rilke. Quem não lê não merece escrever.


Visite os endereços:

www.joycecavalccante.com
www.rebra.org/autoras/2port.html
www.rebra.org


                                                         
[ POR: Eduardo Cruz Filho ]


 
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