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"(...) acho fundamental o escritor acreditar no próprio trabalho, procurar
se aprimorar permanentemente e, acima de tudo, persistir (...)"


O autor de Conexão Beirute-Teeran, Ira Implacável: Indícios de Uma Conspiração e 120 Horas, nasceu no Rio de Janeiro em 1974 e surgiu no cenário literário em 1993. Defensor de um espaço maior para a literatura de entretenimento no Brasil, o autor, de narrativa criativa e envolvente, conseguiu mostrar que é possível encontrar prazer ao ler um thriller nacional. Luis Eduardo Matta conversou conosco sobre a arte de escrever e seus novos projetos.


CL - Passaram-se 13 anos desde a publicação de seu primeiro livro “Conexão Beirute-Teeran”.
Escrever “120 Horas”, sua mais recente publicação, foi mais fácil? O que mudou?

- Muita coisa mudou. Creio que amadureci bastante e esse amadurecimento refletiu-se na minha literatura. Verifico que, ao longo dos anos, escrever foi se tornando cada vez mais trabalhoso e árduo para mim. Talvez porque eu fui ficando mais exigente, mais perfeccionista, o que está longe de ser ruim. Escrever “120 Horas” foi difícil, me tomou mais de um ano de trabalho diário. Mas, é um livro pelo qual tenho um carinho enorme. Foi um grande prazer escrevê-lo e fico contente com a repercussão positiva que ele vem alcançando.

CL - O que o motivou a escrever thrillers?

- Basicamente, a minha paixão pelo suspense. É uma paixão que me acompanha desde criança. Eu devia ter uns oito anos quando, pela primeira vez, tive contato com uma obra de suspense. O universo do mistério, da intriga, da aventura sempre me fascinou. Quando descobri que queria escrever, a opção pelo thriller aconteceu espontaneamente, pois era o tipo de ficção que mais me seduzia. Escrevo thrillers, sobretudo, porque gosto de escrever thrillers, porque amo o universo do suspense.

CL - Você já pensou (ou pensa) em trabalhar com outro gênero?

- Tenho pensado seriamente. Mas, sem jamais abandonar o suspense. A minha idéia é escrever outros livros em paralelo. No início de 2007 vou publicar a minha primeira obra para o público infanto-juvenil. Chama-se “Morte no Colégio” e sairá pela editora Ática. Neste momento, tenho três livros finalizados e estou escrevendo as primeiras linhas de um novo trabalho que espero concluir no primeiro semestre do ano que vem. Não é, exatamente, um livro de suspense como os outros e estou encarando essa nova experiência como um grande desafio. Vamos ver como eu me sairei.

CL - Como se desenvolve a relação entre as editoras e um escritor jovem e com
uma proposta literária que contrasta com as existentes atualmente no Brasil?
Foi difícil publicar suas obras?

- Muito difícil. Mas, publicar no Brasil é, em geral, difícil, independente da proposta literária que se tenha. É um panorama meio desanimador. O mercado editorial no Brasil não se profissionalizou totalmente. Ele ainda é bastante letárgico, sob certos aspectos e não traça planos a médio e longo prazos. Parece só pensar no agora. E um escritor leva tempo para se firmar e se projetar, a menos que seja um fenômeno da mídia, o que é raro e um tanto temerário. Para constituir uma obra respeitável, um escritor precisa de anos, muitas vezes de décadas. Mas, num mundo como o de hoje, que corre contra o relógio, isso soa como uma heresia e os escritores acabam não sendo reconhecidos e compreendidos como deveriam.


CL - Quais escritores brasileiros você lê?

- Adoro a nossa literatura. Perdi a conta dos escritores brasileiros que li até hoje. Sempre tive uma predileção especial por Jorge Amado. Li quase todos os seus livros. É um escritor que me marcou muito. Também não posso deixar de citar autores que admiro como Rachel de Queiroz, Joaquim Manuel de Macedo, Humberto de Campos, Lima Barreto, Millôr Fernandes, Nélida Piñon, Rubem Braga... A literatura brasileira foi, durante alguns anos decisivos da minha vida, a minha grande companheira. É o tipo de coisa que nunca se esquece.

CL - Que peso tem a opinião da crítica literária em seu processo de criação?

- No meu processo criativo, nenhum peso. Ainda porque a crítica praticamente me ignora. E se, algum dia, ela se der conta da minha existência, esse desprezo talvez até se fortaleça. A minha literatura não é do tipo que agrade à crítica. Por mais qualidade que ela tenha, ela sempre será mal-vista pelos críticos. Então, o melhor a fazer é não dar muita importância ao que eventualmente se publique de desabonador em relação ao meu trabalho. Vou continuar escrevendo do meu jeito e cada um que pense e fale o que quiser.


CL - A literatura de entretenimento pode conviver com a chamada literatura
canônica no meio acadêmico?

- Evidente que sim. Não só pode, como deve. Eu acredito sinceramente que a nossa maior falha em relação à literatura no Brasil foi não termos desenvolvido uma literatura de entretenimento com identidade forte. Uma literatura de entretenimento que convivesse com a nossa tradição literária, que é extraordinária e, sob alguns aspectos, até mesmo genial. Muita gente acha que, ao defender uma literatura de entretenimento brasileira, eu estou, ao mesmo tempo, fazendo uma crítica à literatura brasileira existente, o que não é verdade. Para mim, ambas têm o seu espaço. O espaço da literatura de entretenimento no Brasil nunca foi devidamente preenchido, senão por um ou outro escritor. Não conseguimos criar uma tradição. E ao contrário do que muita gente letrada sustenta, essa literatura pode ter muita qualidade e, em inúmeros casos, têm mesmo. Às vezes, até mais do que muita literatura com “L” maiúsculo. Tudo depende de quem a escreve e de como a escreve. O mérito de um livro independe do gênero ao qual ele pertence.

CL - O que é preciso para que consigamos transformar, no Brasil,
a leitura num ato de prazer?

- Acima de tudo, mudar a metodologia de ensino de literatura nas escolas. É na escola que se formam – ou deveriam, em tese, se formar – os leitores e é na adolescência que nasce e se sedimenta o gosto pela leitura. Mas, não é isso o que vem acontecendo. A leitura como um ato prazeroso, não é incentivada. Os livros são indicados aos alunos de uma maneira fria, burocrática, enfadonha, desinteressante. Os alunos são obrigados a ler os livros para fazer um teste de interpretação dali a um mês, dois meses. Muitas vezes, são obras clássicas, totalmente distantes da realidade e da linguagem atuais, que não conseguem seduzir os adolescentes, habituados com a prática de esportes, a tecnologia, o cinema de efeitos especiais, a televisão, os jogos de computador... O resultado disso é que se cria nos jovens uma enorme ojeriza aos livros, que os acompanhará por toda a vida. Essa é a verdadeira causa dos baixos índices de leitura no Brasil. Não é o preço do livro, não é a concorrência da internet, não é nada disso. É o ensino de literatura nas escolas, que está totalmente equivocado e precisa ser repensado com urgência. Mudar isso, no entanto, é difícil, por várias razões. Em primeiro lugar, seria preciso remunerar e preparar melhor os professores, para que eles tivessem tempo e condições de ampliar o seu conhecimento literário, de ler vários livros e escolher quais os mais adequados para a realidade de cada turma, pois casa turma tem um perfil diferente, ainda que pertençam à mesma série e à mesma escola. Além do mais, não interessa muito às editoras mexer no atual sistema, pois é a venda de livros para as escolas e para o governo que sustenta, em boa medida, o mercado editorial brasileiro. Qualquer alteração no atual quadro poderia gerar turbulências, sem que uma perspectiva de mudança realmente concreta se apresentasse em contrapartida.

CL - Uma das características que prendem o leitor em “120 Horas”,
é a riqueza de detalhes. Fale-nos um pouco sobre seu trabalho de pesquisa.

- Em todos os meus livros, uma das minhas maiores preocupações é transportar o leitor para um ambiente e fazer com que ele se sinta dentro deste ambiente, como se fosse mais um personagem da trama. O ambiente precisa ser convincente, verossímil e apresentado com alguma riqueza de detalhes e, ao mesmo tempo, com clareza para que essa inserção do leitor aconteça. Então, a pesquisa é um ponto fundamental do meu trabalho. É graças a ela que eu consigo reunir as informações necessárias para dar esse embasamento aos enredos que desenvolvo. É um trabalho árduo, demorado, mas extremamente prazeroso. Para mim, é também um momento de descoberta e de aprendizado. De uma maneira geral, o que eu faço é o seguinte: assim que eu seleciono os temas e locações que farão parte do livro, começo a correr atrás de todo material que eu considere importante para a minha pesquisa. Em geral são livros, enciclopédias, matérias na imprensa, na televisão e, mais recentemente, a internet. Para escrever “120 Horas”, por exemplo, eu precisei pesquisar sobre tudo relacionado ao mundo da moda e à montagem de um desfile prêt-à-porter, sobre as rotas do tráfico internacional de material atômico, sobre o funcionamento de uma grande empresa de navegação e sobre centrais de enriquecimento de material radioativo. Ao mesmo tempo, precisei me familiarizar com a paisagem, as ruas e a vida diária de quatro cidades no exterior, onde nunca estive, e que servem de locação para a trama. Em geral, a pesquisa acontece paralelamente à redação do livro e varia de acordo com as necessidades que vão surgindo.

CL - Como você considera a questão da mimeses e representação nas suas obras?

- Eu procuro, nas minhas histórias, recriar a realidade, sem contrariá-la. Ou seja, os meus livros são obras de ficção, ambientadas em lugares que existem na vida real, com personagens perfeitamente factíveis, que bem poderiam ser encontrados por aí. Gosto, por exemplo, de olhar para a fotografia de uma rua do Rio, de Paris ou de Beirute e imaginar os meus personagens caminhando ali, insuspeitamente, misturados às pessoas reais. Acho isso fascinante. Isso torna a ficção ainda mais verossímil. É como se ela capturasse um pedaço da realidade e a imortalizasse nas páginas de um livro. Creio que a realidade está bem representada na minha ficção.

CL - Quais são seus próximos projetos literários?

- Meus planos mais imediatos são o lançamento do meu primeiro livro infanto-juvenil, “Morte no Colégio” e a publicação do meu próximo romance, que se chama “O Véu” e é um thriller ambientado no mundo da arte. Nele, um misterioso quadro, condenado publicamente por autoridades islâmicas, vai a leilão no Brasil, ao mesmo tempo em que um alto funcionário do governo do Irã, é preso injustamente, acusado de corrupção. Este livro segue uma linha parecida com a do “120 Horas”, embora sejam histórias totalmente diferentes.

CL - Que dica(s) você poderia dar para os que desejam ser escritores?

- Não sou muito bom de dar dicas. Mas, acho fundamental o escritor acreditar no próprio trabalho, procurar se aprimorar permanentemente e, acima de tudo, persistir sempre. A carreira literária é difícil e tudo parece conspirar para a gente desistir. A perseverança é a nossa maior aliada, pois é ela que nos leva para frente, que nos faz superar as adversidades e atingir alguns objetivos. Ainda que o objetivo seja, apenas, romper a barreira das primeiras páginas e concluir a redação do livro. A maioria dos que começam um livro, nunca chega a terminá-lo.


                                                         
[ POR: Élide Cristina Cruz ]


 
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