CL - Passaram-se 13 anos desde a publicação
de seu primeiro livro “Conexão Beirute-Teeran”.
Escrever “120 Horas”, sua mais recente publicação,
foi mais fácil? O que mudou?
-
Muita
coisa mudou. Creio que amadureci bastante e esse amadurecimento
refletiu-se na minha literatura. Verifico que, ao longo dos anos,
escrever foi se tornando cada vez mais trabalhoso e árduo
para mim. Talvez porque eu fui ficando mais exigente, mais perfeccionista,
o que está longe de ser ruim. Escrever “120 Horas”
foi difícil, me tomou mais de um ano de trabalho diário.
Mas, é um livro pelo qual tenho um carinho enorme. Foi
um grande prazer escrevê-lo e fico contente com a repercussão
positiva que ele vem alcançando.
CL
- O que o motivou a escrever thrillers?
- Basicamente,
a minha paixão pelo suspense. É uma paixão
que me acompanha desde criança. Eu devia ter uns oito anos
quando, pela primeira vez, tive contato com uma obra de suspense.
O universo do mistério, da intriga, da aventura sempre
me fascinou. Quando descobri que queria escrever, a opção
pelo thriller aconteceu espontaneamente, pois era o tipo de ficção
que mais me seduzia. Escrevo thrillers, sobretudo, porque gosto
de escrever thrillers, porque amo o universo do suspense.
CL
- Você já pensou (ou pensa) em trabalhar
com outro gênero?
- Tenho pensado
seriamente. Mas, sem jamais abandonar o suspense. A minha idéia
é escrever outros livros em paralelo. No início
de 2007 vou publicar a minha primeira obra para o público
infanto-juvenil. Chama-se “Morte no Colégio”
e sairá pela editora Ática. Neste momento, tenho
três livros finalizados e estou escrevendo as primeiras
linhas de um novo trabalho que espero concluir no primeiro semestre
do ano que vem. Não é, exatamente, um livro de suspense
como os outros e estou encarando essa nova experiência como
um grande desafio. Vamos ver como eu me sairei.
CL
- Como se desenvolve a relação entre as
editoras e um escritor jovem e com
uma proposta literária que contrasta com as existentes
atualmente no Brasil?
Foi difícil publicar suas obras?
- Muito difícil.
Mas, publicar no Brasil é, em geral, difícil, independente
da proposta literária que se tenha. É um panorama
meio desanimador. O mercado editorial no Brasil não se
profissionalizou totalmente. Ele ainda é bastante letárgico,
sob certos aspectos e não traça planos a médio
e longo prazos. Parece só pensar no agora. E um escritor
leva tempo para se firmar e se projetar, a menos que seja um fenômeno
da mídia, o que é raro e um tanto temerário.
Para constituir uma obra respeitável, um escritor precisa
de anos, muitas vezes de décadas. Mas, num mundo como o
de hoje, que corre contra o relógio, isso soa como uma
heresia e os escritores acabam não sendo reconhecidos e
compreendidos como deveriam.
CL - Quais escritores brasileiros você lê?
- Adoro a
nossa literatura. Perdi a conta dos escritores brasileiros que
li até hoje. Sempre tive uma predileção especial
por Jorge Amado. Li quase todos os seus livros. É um escritor
que me marcou muito. Também não posso deixar de
citar autores que admiro como Rachel de Queiroz, Joaquim Manuel
de Macedo, Humberto de Campos, Lima Barreto, Millôr Fernandes,
Nélida Piñon, Rubem Braga... A literatura brasileira
foi, durante alguns anos decisivos da minha vida, a minha grande
companheira. É o tipo de coisa que nunca se esquece.
CL
- Que peso tem a opinião da crítica literária
em seu processo de criação?
- No meu processo
criativo, nenhum peso. Ainda porque a crítica praticamente
me ignora. E se, algum dia, ela se der conta da minha existência,
esse desprezo talvez até se fortaleça. A minha literatura
não é do tipo que agrade à crítica.
Por mais qualidade que ela tenha, ela sempre será mal-vista
pelos críticos. Então, o melhor a fazer é
não dar muita importância ao que eventualmente se
publique de desabonador em relação ao meu trabalho.
Vou continuar escrevendo do meu jeito e cada um que pense e fale
o que quiser.
CL - A literatura de entretenimento pode conviver com
a chamada literatura
canônica no meio acadêmico?
- Evidente
que sim. Não só pode, como deve. Eu acredito sinceramente
que a nossa maior falha em relação à literatura
no Brasil foi não termos desenvolvido uma literatura de
entretenimento com identidade forte. Uma literatura de entretenimento
que convivesse com a nossa tradição literária,
que é extraordinária e, sob alguns aspectos, até
mesmo genial. Muita gente acha que, ao defender uma literatura
de entretenimento brasileira, eu estou, ao mesmo tempo, fazendo
uma crítica à literatura brasileira existente, o
que não é verdade. Para mim, ambas têm o seu
espaço. O espaço da literatura de entretenimento
no Brasil nunca foi devidamente preenchido, senão por um
ou outro escritor. Não conseguimos criar uma tradição.
E ao contrário do que muita gente letrada sustenta, essa
literatura pode ter muita qualidade e, em inúmeros casos,
têm mesmo. Às vezes, até mais do que muita
literatura com “L” maiúsculo. Tudo depende
de quem a escreve e de como a escreve. O mérito de um livro
independe do gênero ao qual ele pertence.
CL
- O que é preciso para que consigamos transformar,
no Brasil,
a leitura num ato de prazer?
- Acima de
tudo, mudar a metodologia de ensino de literatura nas escolas.
É na escola que se formam – ou deveriam, em tese,
se formar – os leitores e é na adolescência
que nasce e se sedimenta o gosto pela leitura. Mas, não
é isso o que vem acontecendo. A leitura como um ato prazeroso,
não é incentivada. Os livros são indicados
aos alunos de uma maneira fria, burocrática, enfadonha,
desinteressante. Os alunos são obrigados a ler os livros
para fazer um teste de interpretação dali a um mês,
dois meses. Muitas vezes, são obras clássicas, totalmente
distantes da realidade e da linguagem atuais, que não conseguem
seduzir os adolescentes, habituados com a prática de esportes,
a tecnologia, o cinema de efeitos especiais, a televisão,
os jogos de computador... O resultado disso é que se cria
nos jovens uma enorme ojeriza aos livros, que os acompanhará
por toda a vida. Essa é a verdadeira causa dos baixos índices
de leitura no Brasil. Não é o preço do livro,
não é a concorrência da internet, não
é nada disso. É o ensino de literatura nas escolas,
que está totalmente equivocado e precisa ser repensado
com urgência. Mudar isso, no entanto, é difícil,
por várias razões. Em primeiro lugar, seria preciso
remunerar e preparar melhor os professores, para que eles tivessem
tempo e condições de ampliar o seu conhecimento
literário, de ler vários livros e escolher quais
os mais adequados para a realidade de cada turma, pois casa turma
tem um perfil diferente, ainda que pertençam à mesma
série e à mesma escola. Além do mais, não
interessa muito às editoras mexer no atual sistema, pois
é a venda de livros para as escolas e para o governo que
sustenta, em boa medida, o mercado editorial brasileiro. Qualquer
alteração no atual quadro poderia gerar turbulências,
sem que uma perspectiva de mudança realmente concreta se
apresentasse em contrapartida.
CL
- Uma das características que prendem o leitor
em “120 Horas”,
é a riqueza de detalhes. Fale-nos um pouco sobre seu trabalho
de pesquisa.
- Em todos
os meus livros, uma das minhas maiores preocupações
é transportar o leitor para um ambiente e fazer com que
ele se sinta dentro deste ambiente, como se fosse mais um personagem
da trama. O ambiente precisa ser convincente, verossímil
e apresentado com alguma riqueza de detalhes e, ao mesmo tempo,
com clareza para que essa inserção do leitor aconteça.
Então, a pesquisa é um ponto fundamental do meu
trabalho. É graças a ela que eu consigo reunir as
informações necessárias para dar esse embasamento
aos enredos que desenvolvo. É um trabalho árduo,
demorado, mas extremamente prazeroso. Para mim, é também
um momento de descoberta e de aprendizado. De uma maneira geral,
o que eu faço é o seguinte: assim que eu seleciono
os temas e locações que farão parte do livro,
começo a correr atrás de todo material que eu considere
importante para a minha pesquisa. Em geral são livros,
enciclopédias, matérias na imprensa, na televisão
e, mais recentemente, a internet. Para escrever “120 Horas”,
por exemplo, eu precisei pesquisar sobre tudo relacionado ao mundo
da moda e à montagem de um desfile prêt-à-porter,
sobre as rotas do tráfico internacional de material atômico,
sobre o funcionamento de uma grande empresa de navegação
e sobre centrais de enriquecimento de material radioativo. Ao
mesmo tempo, precisei me familiarizar com a paisagem, as ruas
e a vida diária de quatro cidades no exterior, onde nunca
estive, e que servem de locação para a trama. Em
geral, a pesquisa acontece paralelamente à redação
do livro e varia de acordo com as necessidades que vão
surgindo.
CL
- Como você considera a questão da mimeses
e representação nas suas obras?
- Eu procuro,
nas minhas histórias, recriar a realidade, sem contrariá-la.
Ou seja, os meus livros são obras de ficção,
ambientadas em lugares que existem na vida real, com personagens
perfeitamente factíveis, que bem poderiam ser encontrados
por aí. Gosto, por exemplo, de olhar para a fotografia
de uma rua do Rio, de Paris ou de Beirute e imaginar os meus personagens
caminhando ali, insuspeitamente, misturados às pessoas
reais. Acho isso fascinante. Isso torna a ficção
ainda mais verossímil. É como se ela capturasse
um pedaço da realidade e a imortalizasse nas páginas
de um livro. Creio que a realidade está bem representada
na minha ficção.
CL
- Quais são seus próximos projetos literários?
- Meus planos
mais imediatos são o lançamento do meu primeiro
livro infanto-juvenil, “Morte no Colégio” e
a publicação do meu próximo romance, que
se chama “O Véu” e é um thriller ambientado
no mundo da arte. Nele, um misterioso quadro, condenado publicamente
por autoridades islâmicas, vai a leilão no Brasil,
ao mesmo tempo em que um alto funcionário do governo do
Irã, é preso injustamente, acusado de corrupção.
Este livro segue uma linha parecida com a do “120 Horas”,
embora sejam histórias totalmente diferentes.
CL
- Que dica(s) você poderia dar para os que desejam
ser escritores?
-
Não sou muito bom de dar dicas. Mas, acho fundamental o
escritor acreditar no próprio trabalho, procurar se aprimorar
permanentemente e, acima de tudo, persistir sempre. A carreira
literária é difícil e tudo parece conspirar
para a gente desistir. A perseverança é a nossa
maior aliada, pois é ela que nos leva para frente, que
nos faz superar as adversidades e atingir alguns objetivos. Ainda
que o objetivo seja, apenas, romper a barreira das primeiras páginas
e concluir a redação do livro. A maioria dos que
começam um livro, nunca chega a terminá-lo.
[
POR: Élide Cristina Cruz ]