Marcos
Bagno é escritor e "professor do Departamento de Lingüística
da Universidade de Brasília (UnB), onde atua na graduação
e nos programas de pós-graduação em Lingüística
e em Educação. Coordena atualmente o projeto IVEM
(Impacto do Vernáculo sobre a Escrita Monitorada: mudança
lingüística e conseqüências para o letramento
escolar)."
CL
- O Senhor tem, ao longo dos anos, sustentado, com muita
propriedade, a discussão sobre “variação
lingüística”. O que o motivou a iniciar, e o
motiva a manter, essa discussão? Qual é a importância
dessa discussão?
A variação lingüística é um conceito
muito importante para o estudo da linguagem, porque, no plano
teórico, acaba com a postura assumida pelos primeiros lingüistas
modernos (começando por Saussure) de estudar somente a
“língua em si mesma”, descontextualizada, fora
da vida social. Reconhecer que a língua é heterogênea
tem muitas conseqüências científicas importantes.
Mas, no que me diz respeito, o conceito de variação
é fundamental porque ele chama a nossa atenção
para as conseqüências sociais, políticas, culturais,
ideológicas e pedagógicas da heterogeneidade lingüística.
Não basta reconhecer a heterogeneidade, como postulado
teórico: é preciso também reconhecer que
essa heterogeneidade cria divisões sociais, gera a discriminação
cultural, produz exclusões. E é nesse campo mais
propriamente sociológico que o conceito de variação
me interessa.
CL
- Ao tratar das questões que envolvem a gramática
normativa e os efetivos usos da língua, o Senhor freqüentemente
usa o termo: “preconceito social” em detrimento do
termo “preconceito lingüístico”. Qual
é a diferença?
Digo que o preconceito lingüístico, propriamente,
não existe, que o que existe de fato é o preconceito
social por uma razão muito simples: quando se diz que uma
pessoa fala “errado” ou fala “feio”, o
que de fato está se fazendo é transferir para a
língua uma série de julgamentos que são,
de fato, sociais. Basta ver que as pessoas acusadas de “falar
errado”, “falar feio” etc. são sempre
os cidadãos mais pobres, da zona rural ou das periferias
das grandes cidades, de baixo poder aquisitivo, analfabetos ou
com pouco acesso à escolarização etc. Com
isso, quem está sendo vítima do preconceito é,
concretamente, o ser humano em si, como pessoa, e não a
língua que ele fala.
CL
- Quanto à educação escolar, o preconceito
social, em função da língua, é mais
evidente no ensino público ou no ensino privado?
Creio que não há muita diferença. Pode haver,
talvez, tipos distintos de preconceito contra algumas formas lingüísticas
— no ensino privado, por exemplo, pode haver um combate
maior à gíria, enquanto no público o peso
da discriminação pode recair sobre fenômenos
fonéticos e gramaticais — mas na essência é
a mesma coisa.
CL
- O Senhor acredita que os docentes têm se esforçado
para se apropriar dessa discussão, ou ainda se mostram
resistentes a ela?
Os cursos de formação de professores vêm incorporando,
há algum tempo, os postulados básicos da sociolingüística
em seus currículos. O problema é que, em geral,
os conceitos são trabalhados de forma superficial, sem
aprofundamento teórico, e muita distorção
acaba se produzindo. Justamente para tentar sanar esses problemas,
publiquei recentemente um livro chamado Nada
na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação
lingüística, em que tento limpar o
terreno dos equívocos mais freqüentes que aparecem
quando se vai tratar desse tema.
CL
- Os autores de livros didáticos e dicionaristas
têm se empenhado em abordar a questão da “variação
lingüística” em suas obras?
Sim, até mesmo por causa da cobrança que o Ministério
da Educação faz de que o material didático
destinado às escolas públicas contenham a discussão
sobre a variação lingüística e suas
conseqüências. No entanto, como disse acima, muitas
vezes a abordagem que se faz nos livros didáticos é
problemática, confunde os conceitos, não tem consistência
teórica. Quanto aos dicionários, eles variam muito,
de posturas muito conservadoras até atitudes mais respeitosas
da variação.
CL
- Em que medida e de que forma a discussão sobre
"variação lingüística" deve
fazer parte efetiva do ensino e da aprendizagem de língua
no EF e no EM?
É impensável imaginar o ensino de língua,
hoje, em pleno século XXI, sem abordar a temática
da variação. Ela veio para ficar como objeto e objetivo
da educação lingüística. No entanto,
ainda é preciso avançar muito para que se construa
uma pedagogia efetiva e eficiente da variação. Nos
livros didáticos, por exemplo, é comum encontrarmos
bons capítulos sobre variação lingüística,
“politicamente corretos”, mas uma insistência
descabida, nos capítulos sobre gramática, na preservação
de regras gramaticais caídas na obsolescência, como
se fossem as únicas corretas. Com isso, muitos livros didáticos
acabam tendo uma aparência esquizofrênica.
CL
- Os debates, a respeito dos usos da língua, entre
os lingüistas sérios e os gramáticos (não
tão sérios assim) estão em processo de arrefecimento,
ou continuam superaquecidos? Qual é a tendência?
Não se pode colocar as coisas em termos de lingüistas
versus gramáticos. Os verdadeiros gramáticos são,
necessariamente, lingüistas, porque o estudo da gramática
é um dos muitos campos de interesse da ciência lingüística.
Seria a mesma coisa que dizer que um cirurgião não
é médico... O embate se dá entre os estudiosos
da língua e os falsos profetas do apocalipse lingüístico
que invadiram os meios de comunicação, acusando
os brasileiros de falar tudo errado, prognosticando a ruína
e o desaparecimento da língua portuguesa e outras bobagens
desse tipo. Esses falsos curandeiros da língua é
que precisam ser veementemente denunciados e combatidos, porque
estão defendendo idéias pré-científicas,
arcaicas, que as ciências da linguagem abandonaram há
mais de cem anos.
CL
- O Senhor acredita que a resistência ao fato de
que a língua é dinâmica, é motivada
por posições exclusivamente filosóficas?
Não só. O principal componente nesse caso é
ideológico: a noção de língua “certa”
sempre esteve vinculada ao poder, às classes dominantes.
Reconhecer que a língua é variável, que todas
as formas de falar são lógicas e coerentes, que
é preciso democratizar o ambiente lingüístico,
é ameaçar o domínio de alguns sobre todos
os outros. A velha noção de luta de classes ainda
vale muito bem aqui.
CL
- Qual é (ou deveria ser) o papel dos meios de
comunicação de massa nessa discussão?
Promover um debate sereno e bem fundado sobre a língua,
sobre os direitos lingüísticos (uma noção
defendida pela Unesco, que já promulgou uma Declaração
Universal dos Direitos Lingüísticos), sobre a situação
catastrófica da educação no Brasil etc. Sobretudo,
deveriam parar de dar tanto espaço aos falsos especialistas
e mais espaço aos que sabem realmente o que estão
dizendo.
CL
- O Senhor está trabalhando em alguma nova publicação?
No exato momento em que respondo essas perguntas, está
sendo rodado meu novo livro, Nada
na língua é por acaso: por uma pedagogia
da variação lingüística,
que sairá pela Parábola Editorial, de São
Paulo. Deve estar pronto nos últimos dias de fevereiro
e será lançado por ocasião do congresso da
ABRALIN (Associação Brasileira de Lingüística),
em Belo Horizonte.
[POR:
Eduardo Cruz Filho]
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