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"[...] quando se diz que uma pessoa fala “errado” ou fala “feio”, o que de fato está se
fazendo é transferir para a língua uma série de julgamentos que são, de fato, sociais."


"A militância de Bagno contra toda forma de exclusão social pela linguagem se tornou mais conhecida depois da publicação do livro Preconceito lingüístico: o que é, como se faz (Ed. Loyola) que, desde seu lançamento, em 1999, vem sendo reeditado de modo ininterrupto e constante, com uma edição nova a cada mês."


Marcos Bagno é escritor e "professor do Departamento de Lingüística da Universidade de Brasília (UnB), onde atua na graduação e nos programas de pós-graduação em Lingüística e em Educação. Coordena atualmente o projeto IVEM (Impacto do Vernáculo sobre a Escrita Monitorada: mudança lingüística e conseqüências para o letramento escolar)."

CL - O Senhor tem, ao longo dos anos, sustentado, com muita propriedade, a discussão sobre “variação lingüística”. O que o motivou a iniciar, e o motiva a manter, essa discussão? Qual é a importância dessa discussão?

A variação lingüística é um conceito muito importante para o estudo da linguagem, porque, no plano teórico, acaba com a postura assumida pelos primeiros lingüistas modernos (começando por Saussure) de estudar somente a “língua em si mesma”, descontextualizada, fora da vida social. Reconhecer que a língua é heterogênea tem muitas conseqüências científicas importantes. Mas, no que me diz respeito, o conceito de variação é fundamental porque ele chama a nossa atenção para as conseqüências sociais, políticas, culturais, ideológicas e pedagógicas da heterogeneidade lingüística. Não basta reconhecer a heterogeneidade, como postulado teórico: é preciso também reconhecer que essa heterogeneidade cria divisões sociais, gera a discriminação cultural, produz exclusões. E é nesse campo mais propriamente sociológico que o conceito de variação me interessa.

CL - Ao tratar das questões que envolvem a gramática normativa e os efetivos usos da língua, o Senhor freqüentemente usa o termo: “preconceito social” em detrimento do termo “preconceito lingüístico”. Qual é a diferença?

Digo que o preconceito lingüístico, propriamente, não existe, que o que existe de fato é o preconceito social por uma razão muito simples: quando se diz que uma pessoa fala “errado” ou fala “feio”, o que de fato está se fazendo é transferir para a língua uma série de julgamentos que são, de fato, sociais. Basta ver que as pessoas acusadas de “falar errado”, “falar feio” etc. são sempre os cidadãos mais pobres, da zona rural ou das periferias das grandes cidades, de baixo poder aquisitivo, analfabetos ou com pouco acesso à escolarização etc. Com isso, quem está sendo vítima do preconceito é, concretamente, o ser humano em si, como pessoa, e não a língua que ele fala.

CL - Quanto à educação escolar, o preconceito social, em função da língua, é mais evidente no ensino público ou no ensino privado?

Creio que não há muita diferença. Pode haver, talvez, tipos distintos de preconceito contra algumas formas lingüísticas — no ensino privado, por exemplo, pode haver um combate maior à gíria, enquanto no público o peso da discriminação pode recair sobre fenômenos fonéticos e gramaticais — mas na essência é a mesma coisa.

CL - O Senhor acredita que os docentes têm se esforçado para se apropriar dessa discussão, ou ainda se mostram resistentes a ela?

Os cursos de formação de professores vêm incorporando, há algum tempo, os postulados básicos da sociolingüística em seus currículos. O problema é que, em geral, os conceitos são trabalhados de forma superficial, sem aprofundamento teórico, e muita distorção acaba se produzindo. Justamente para tentar sanar esses problemas, publiquei recentemente um livro chamado Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação lingüística, em que tento limpar o terreno dos equívocos mais freqüentes que aparecem quando se vai tratar desse tema.

CL - Os autores de livros didáticos e dicionaristas têm se empenhado em abordar a questão da “variação lingüística” em suas obras?

Sim, até mesmo por causa da cobrança que o Ministério da Educação faz de que o material didático destinado às escolas públicas contenham a discussão sobre a variação lingüística e suas conseqüências. No entanto, como disse acima, muitas vezes a abordagem que se faz nos livros didáticos é problemática, confunde os conceitos, não tem consistência teórica. Quanto aos dicionários, eles variam muito, de posturas muito conservadoras até atitudes mais respeitosas da variação.

CL - Em que medida e de que forma a discussão sobre "variação lingüística" deve fazer parte efetiva do ensino e da aprendizagem de língua no EF e no EM?

É impensável imaginar o ensino de língua, hoje, em pleno século XXI, sem abordar a temática da variação. Ela veio para ficar como objeto e objetivo da educação lingüística. No entanto, ainda é preciso avançar muito para que se construa uma pedagogia efetiva e eficiente da variação. Nos livros didáticos, por exemplo, é comum encontrarmos bons capítulos sobre variação lingüística, “politicamente corretos”, mas uma insistência descabida, nos capítulos sobre gramática, na preservação de regras gramaticais caídas na obsolescência, como se fossem as únicas corretas. Com isso, muitos livros didáticos acabam tendo uma aparência esquizofrênica.

CL - Os debates, a respeito dos usos da língua, entre os lingüistas sérios e os gramáticos (não tão sérios assim) estão em processo de arrefecimento, ou continuam superaquecidos? Qual é a tendência?

Não se pode colocar as coisas em termos de lingüistas versus gramáticos. Os verdadeiros gramáticos são, necessariamente, lingüistas, porque o estudo da gramática é um dos muitos campos de interesse da ciência lingüística. Seria a mesma coisa que dizer que um cirurgião não é médico... O embate se dá entre os estudiosos da língua e os falsos profetas do apocalipse lingüístico que invadiram os meios de comunicação, acusando os brasileiros de falar tudo errado, prognosticando a ruína e o desaparecimento da língua portuguesa e outras bobagens desse tipo. Esses falsos curandeiros da língua é que precisam ser veementemente denunciados e combatidos, porque estão defendendo idéias pré-científicas, arcaicas, que as ciências da linguagem abandonaram há mais de cem anos.

CL - O Senhor acredita que a resistência ao fato de que a língua é dinâmica, é motivada por posições exclusivamente filosóficas?

Não só. O principal componente nesse caso é ideológico: a noção de língua “certa” sempre esteve vinculada ao poder, às classes dominantes. Reconhecer que a língua é variável, que todas as formas de falar são lógicas e coerentes, que é preciso democratizar o ambiente lingüístico, é ameaçar o domínio de alguns sobre todos os outros. A velha noção de luta de classes ainda vale muito bem aqui.

CL - Qual é (ou deveria ser) o papel dos meios de comunicação de massa nessa discussão?

Promover um debate sereno e bem fundado sobre a língua, sobre os direitos lingüísticos (uma noção defendida pela Unesco, que já promulgou uma Declaração Universal dos Direitos Lingüísticos), sobre a situação catastrófica da educação no Brasil etc. Sobretudo, deveriam parar de dar tanto espaço aos falsos especialistas e mais espaço aos que sabem realmente o que estão dizendo.

CL - O Senhor está trabalhando em alguma nova publicação?

No exato momento em que respondo essas perguntas, está sendo rodado meu novo livro, Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação lingüística, que sairá pela Parábola Editorial, de São Paulo. Deve estar pronto nos últimos dias de fevereiro e será lançado por ocasião do congresso da ABRALIN (Associação Brasileira de Lingüística), em Belo Horizonte.


                                                         [POR: Eduardo Cruz Filho]

 

Visite o site de Marcos Bagno: www.marcosbagno.com.br


 
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