Por
volta de 1853, ao mudar-se com a família para a capital,
estudou no colégio de Abílio César Borges,
futuro barão de Macaúbas, onde foi colega de Rui
Barbosa, demonstrando vocação apaixonada e precoce
para a poesia. Mudou-se em 1862 para o Recife, onde concluiu
os preparatórios e, depois de duas vezes reprovado, matriculou-se
na Faculdade de Direito em 1864. Cursou o 1o ano em 65, na mesma
turma que Tobias Barreto. Logo integrado na vida literária
acadêmica e admirado graças aos seus versos, cuidou
mais deles e dos amores que dos estudos. Em 66, perdeu o pai
e, pouco depois, iniciou a apaixonada ligação
amorosa com Eugênia Câmara, que desempenhou importante
papel em sua lírica e em sua vida.
Nessa
época Castro Alves entrou numa fase de grande inspiração
e tomou consciência do seu papel de poeta social. Escreveu
o drama Gonzaga e, em 68, vai para o Sul em companhia da amada,
matriculando-se no 3o ano da Faculdade de Direito de São
Paulo, na mesma turma de Rui Barbosa. No fim do ano o drama
é representado com êxito enorme, mas o seu espírito
se abate pela ruptura com Eugênia Câmara. Durante
uma caçada, a descarga acidental de uma espingarda lhe
feriu o pé esquerdo, que, sob ameaça de gangrena,
foi afinal amputado no Rio, em meados de 69. De volta à
Bahia, passou grande parte do ano de 70 em fazendas de parentes,
à busca de melhoras para a saúde comprometida
pela tuberculose. Em novembro, saiu seu primeiro livro, Espumas
flutuantes, único que chegou a publicar em vida, recebido
muito favoravelmente pelos leitores.
Daí
por diante, apesar do declínio físico, produziu
alguns dos seus mais belos versos, animado por um derradeiro
amor, este platônico, pela cantora Agnese Murri. Faleceu
em 1871, aos 24 anos, sem ter podido acabar a maior empresa
que se propusera, o poema Os escravos, uma série de poesias
em torno do tema da escravidão. Ainda em 70, numa das
fazendas em que repousava, havia completado A cascata de Paulo
Afonso, que saiu em 76 com o título A cachoeira de Paulo,
e que é parte do empreendimento, como se vê pelo
esclarecimento do poeta: “Continuação do
poema Os escravos, sob título de Manuscritos de Stênio.”
Duas
vertentes se distinguem na poesia de Castro Alves: a feição
lírico-amorosa, mesclada da sensualidade de um autêntico
filho dos trópicos, e a feição social e
humanitária, em que alcança momentos de fulgurante
eloqüência épica. Como poeta lírico,
caracteriza-se pelo vigor da paixão, a intensidade com
que exprime o amor, como desejo, frêmito, encantamento
da alma e do corpo, superando completamente o negaceio de Casimiro
de Abreu, a esquivança de Álvares de Azevedo,
o desespero acuado de Junqueira Freire. A grande e fecundante
paixão por Eugênia Câmara percorreu-o como
corrente elétrica, reorganizando-lhe a personalidade,
inspirando alguns dos seus mais belos poemas de esperança,
euforia, desespero, saudade. Outros amores e encantamentos constituem
o ponto de partida igualmente concreto de outros poemas.
Enquanto
poeta social, extremamente sensível às inspirações
revolucionárias e liberais do século XIX, Castro
Alves viveu com intensidade os grandes episódios históricos
do seu tempo e foi, no Brasil, o anunciador da Abolição
e da República, devotando-se apaixonadamente à
causa abolicionista, o que lhe valeu a antonomásia de
“Cantor dos escravos”. A sua poesia se aproxima
da retórica, incorporando a ênfase oratória
à sua magia. No seu tempo, mais do que hoje, o orador
exprimia o gosto ambiente, cujas necessidades estéticas
e espirituais se encontram na eloqüência dos poetas.
Em Castro Alves, a embriaguez verbal encontra o apogeu, dando
à sua poesia poder excepcional de comunicabilidade.
Dele
ressalta a figura do bardo que fulmina a escravidão e
a injustiça, de cabeleira ao vento. A dialética
da sua poesia implica menos a visão do escravo como realidade
presente do que como episódio de um drama mais amplo
e abstrato: o do próprio destino humano, presa dos desajustamentos
da história. Encarna as tendências messiânicas
do Romantismo e a utopia libertária do século.
O negro, escravizado, misturado à vida cotidiana em posição
de inferioridade, não se podia elevar a objeto estético.
Surgiu primeiro à consciência literária
como problema social, e o abolicionismo era visto apenas como
sentimento humanitário pela maioria dos escritores que
até então trataram desse tema. Só Castro
Alves estenderia sobre o negro o manto redentor da poesia, tratando-o
como herói, como ser integralmente humano.
OBRAS:
Espumas flutuantes, 1870.
Gonzaga ou a Revolução de Minas,
1875.
A cachoeira de Paulo Afonso, 1876.
Vozes d`África. Navio
Negreiro, 1880.
Os escravos, obra dividida em duas
partes:
1. A cachoeira de Paulo Afonso;
2. Manuscritos de Stênio,
1883.
Obras completas:
Edição do cinqüentenário da morte
de Castro Alves, comentada, anotada e com
numerosos inéditos, por Afrânio Peixoto, em 2 volumes,
1921.
Poesias Completas editada por J. Almansur Haddad, 1952.
Obra Completa, editada por Eugênio Gomes, 1960.