"Guimarães
Rosa soube conciliar as reflexões e os estilos mais autenticamente
brasileiros (ensaismo e oralidade) com as formas narrativas das
vanguardas (fluxo de consciência, memória involuntária).
Meio século depois da publicação de seu grande
romance, temos distância e proximidade adequadas para debatermos
a riqueza dessa paradoxal criação."
(Kathrin
Holzermayr Rosenfield)
"
Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais
no sozinho do vago..." - foi o que pensei na ocasião.
De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na
minha vida, e não sabia como não ter. Apertou
em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a
sem razão de motivo; que, quando notei que estava
com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza
vinha era daquilo, isso até me serviu de bom consolo.
E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu
extenso ia.
"Grande
Sertão:Veredas"
|
Guimarães Rosa
passou a infância no centro-norte de Minas Gerais. Cursou
o secundário e a faculdade de Medicina em Belo Horizonte.
Graduado, trabalhou em várias cidades do interior mineiro,
sempre demonstrando profundo interesse pela natureza, por bichos
e plantas, pelos sertanejos e pelo estudo de línguas (estudou
sozinho alemão e russo). Em 1934, iniciou carreira diplomática,
prestando concurso para o Ministério do Exterior - serviu
na Alemanha durante a II Guerra Mundial e posteriormente na Colômbia
e na França. Em 1958, foi nomeado ministro; é dessa
época o reconhecimento da genialidade do escritor, em conseqüência
da publicação de "Corpo de baile"
e "Grande sertão: veredas",
ambos de 1956. Em 16 de novembro de 1967, tomou posse na Academia
Brasileira de Letras.
Publicando seu primeiro livro - "Sagarana"
- em 1946, um ano após a queda de Getúlio Vargas
e o início das produções da chamada Geração
de 45, Guimarães Rosa apontaria novos rumos para a literatura
brasileira. Passada a primeira fase do Modernismo e já
vivida a experiência da prosa regionalista da década
de 30, os contos de Sagarana abririam uma nova perspectiva para
o regionalismo. A principio, percebe-se uma revalorização
da linguagem; a seguir, a universalização do regional.
0 valor da linguagem particular de Guimarães Rosa não
está no rebuscamento das palavras no uso de arcaísmos,
mas sim nos neologismos, na recriação, na invenção
das palavras, sempre tendo como ponto de partida a fala dos sertanejos,
suas expressões, suas particularidades. Com isso, as palavras
recriadas ganham força e significado novos, como afirma
o crítico português Oscar Lopes.
O misticismo, outro aspecto relevante da obra de Guimarães
Rosa, está sugerido na última das interrogações
de Drummond em seu poema-homenagem "Um chamado João":
"Tinha parte com ..." o diabo? Ou era ele a "ponte
entre o sub e o sobre", dividido entre os que lutam "de
antes do princípio", Deus e o diabo, o Bem e o Mal?
Em Guimarães Rosa transparece todo o misticismo do sertão,
uma religiosidade quase medieval, baseada apenas nos dois extremos
e marcada pelo medo, pelo pavor, em que há até mesmo
a preocupação de não invocar o demo, para
que ele não "forme forma"; daí o diabo
ser tratado por "o que não existe" ou "o
que não é mas finge ser" e expressões
semelhantes.
Assim
é o sertão de Rosa: ora particular, pequeno e próximo;
ora universal e infinito, pois "o sertão é
o mundo" ou, melhor ainda, "o sertão é
dentro da gente". Por isso, logo na abertura de "Grande
sertão: veredas", o autor nos situa diante do problema:
"O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem
que não seja: que situado sertão é por os
campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras
altas, demais do Urucúia. Toleima. Para os de Corinto e
do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão?
Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde
os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas,
sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo
Jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucúia vem
dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo
dá - fazendões de fazendas, almargem de vargens
de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em
mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá
há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem
tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão
ou pães, é questão de opiniões...
O sertão está em toda a parte."
[Fonte:
vestibular.setanet.com.br - Por: José de Nicola, por Esquina
da Literatura]
OBRAS:
- Magma, Nova
Fronteira, 1997.
- Grande sertão: veredas,
Nova Fronteira, 2001.
- Sagarana, Nova Fronteira,
2001.
- Estas estórias, Nova
Fronteira, 2001.
- Ave, palavra, Nova
Fronteira, 2001.
- Noites do Sertão: Corpo de Baile,
Nova Fronteira, 2001.
- Tutaméia: Terceiras Estórias,
Nova Fronteira, 2001.
- No Urubuquaquá, no Pinhém,
Nova Fronteira, 2001.
- Cartas a William Agel de Mello,
Ateliê, 2003.
- Escritura de Sagarana, Navegar,
2003.
- Primeiras estórias,
Nova Fronteira, 2005.
- Corpo de baile, Nova
Fronteira, 2006.
- Hora e Vez de Augusto Matraga,
Nova Fronteira, s.d.
- Fita verde no cabelo, Nova
Fronteira, s.d.