O
VIDENTE
Primeiro
o menino viu uma estrela pousada nas
pétalas da noite
E foi contar para a turma.
A turma falou que o menino zoroava.
Logo o menino contou que viu o dia parado em cima
de uma lata
Igual que um pássaro pousado sobre uma pedra.
Ele disse: Dava a impressão que a lata amparava o
dia.
A turma caçoou.
Mas o menino começou a apertar parafuso no vento.
A turma falou: Mas como você pode apertar parafuso
no vento
Se o vento nem tem organismo.
Mas o menino afirmou que o vento tinha organismo
E continuou a apertar parafuso no vento.
BARROS, Manoel. Tratado geral
das grandezas do ínfimo. Rio
de Janeiro, Record, 2001. p. 25.
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Manoel
de Barros, dizia Drummond, é o maior poeta brasileiro vivo.
Nascido em 1916, Manoel atravessou sua infância em Corumbá,
no Estado do Pantanal, cidade marcada pela sua híbrida
condição de entreposto portuário do Rio Paraguai
e localidade fronteiriça a Porto Suarez, na Bolívia.
Filho de um capataz de fazenda que se tornou fazendeiro, o guri
fazedor de inutensílios crescerá em meio a bois,
sinimbus, jacarés, sapos e outros seres poeticamente híbridos.
Mais tarde, seguindo os dormentes sinuosos da estrada de ferro,
desloca-se do Brasil Central rumo ao litoral e, no Rio de Janeiro,
diploma-se em Direito, curso convencionalmente abraçado
pelos jovens promissores da época. Passa, então,
a deambular entre pueblos bolivianos e cineclubes e museus novaiorquinos,
até decidir-se, com o firme apoio de sua esposa - filha
de fazendeiros mineiros -, pelo assentamento em terras pantaneiras.
O irrequieto poeta terminará por assumir a bucólica
sina de cultivar, entre versos e gelados goles de tereré,
a extensa propriedade rural paterna.
Marcado
por uma infância e uma juventude vividas em universo semovente
e antitético, o poeta das planícies inundáveis
publicará Poemas Concebidos sem Pecado (1937), Face Imóvel
(1942), Poesias (1956), Compêndio para Uso dos Pássaros
(1960), Gramática Expositiva do Chão (1966), Matéria
de Poesia (1970), Arranjos para Assobio (1980), Livro de Pré-Coisas
(1985), O Guardador de Águas (1989), Poesia quase toda
(coletânea, 1990), Concerto a céu aberto para Solos
de Ave (1991), O Livro das Ignorãças (1993), Livro
sobre Nada (1996), Retrato do Artista quando Coisa (1998), Exercícios
de ser criança (1999), Ensaios Fotográficos (2000).
O seu gosto pronunciado pela leitura de ensaios de filologia permeará
imagens telúricas e esteadas em um ilogismo próprio
de "crianças, loucos e poetas". Nesse universo
poético, são abolidas as fronteiras entre os reinos
vegetal, mineral e animal, assim como as estanques categorias
gramaticais.
Conta
a lenda que, de um encontro "fortuito" provocado pelo
bardo das fronteiras líquidas, nasceu uma sólida
amizade pessoal com Guimarães Rosa: ao saber que o "io
bardo" do Grande Sertão participaria de um passeio
fluvial em águas pantaneiras (corria o ano de 1947 e Sagarana
arrebatava a intelligentsia tupiniquim), Barros, apesar de sua
timidez natural, logrou subir na mesma embarcação;
ao perceber João perscrutando o vôo das andorinhas
rumo ao sol poente, Manoel acostou-se ao parapeito em que estava
o velho Guima e lançou seu vaticínio: "...as
andorinhas encurtam o dia..." Desse encontro memorável,
a biblioteca deixada por Rosa e conservada pela USP guarda um
testemunho: dois livros de Manoel de Barros entre Platões,
Goethes e outros Plotinos. Também a poética de Joãozito
poderá ser vista como uma chave para a leitura de Manoel
em seus exercícios de ser criança.
Após
ser agraciado com os Prêmios Nestlé e Ministério
da Cultura, Barros receberá, agora, a merecida homenagem
oficial da comunidade universitária, na forma do diploma
de Doutoramento Honoris Causa. O título será outorgado
pela Universidade Católica Dom Bosco, no dia 27 de outubro,
em Campo Grande. A homenagem vem contemplar a intensa produção
poética de Manoel de Barros e a longa lista de estudos
críticos desenvolvidos em diversas universidades do país
em torno dessa obra extremamente representativa da cultura do
Brasil central.
[Fontes:
Fundação Manoel de Barros e ucdb]
“O
tema do poeta é sempre ele mesmo. Ele é um
narcisista: expõe o mundo através dele mesmo.
Ele quer ser o mundo, e pelas inquietações
dele, desejos, esperanças, o mundo aparece. Através
de sua essência, a essência do mundo consegue
aparecer. O tema da minha poesia sou eu mesmo (...)”
(Entrevista
concedida a André Luís Barros) |
OBRAS:
– Poemas concebidos sem pecado,
(1937), Record, s.d.
– Face Imóvel, 1942.
– Poesia, 1956.
– Compêndio para Uso dos Pássaros,
(1960), Record, 1999.
– Gramática Expositiva do Chão,
(1966), Record, 1999.
– Matéria de Poesia, Record,
1974.
– Arranjos para Assobio, (1982),
Record, 2002.
– Livro de Pré Coisas,
Record, 1985.
– O Guardador das Águas,
Record, 1989.
– Concerto a Céu Aberto para Solos de
Aves, Record, 1991.
– Exercício de ser criança,
Salamandra, 1999.
– Ensaios fotográficos,
Record, 2000.
– Tratado geral das grandezas do ínfimo,
Record, 2001.
– Poeminhas Pescados Numa Fala de João,
Record, 2001.
– O fazedor de amanhecer, Salamandra,
2001.
– Cantigas por um passarinho à toa,
Record, 2003.
– Memórias Inventadas: a Infância,
Planeta do Brasil, 2003.
– Livro Sobre Nada, (1996), Record,
2004.
– Poemas rupestres, Record, 2004.
– Memórias Inventadas: a Segunda Infância,
Record, 2006.
– O livro das Ignorãças,
Record, s.d.
– Retrato do artista quando coisa,
Record, s.d.