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MANOEL DE BARROS

Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu no Beco da Marinha, beira do Rio Cuiabá em 1916. Publicou seu primeiro livro de poesia, Poemas Concebidos Sem Pecado, em 1937. Formou-se em Direito no Rio de Janeiro RJ, em 1941. A partir de 1960 passou trabalhar como fazendeiro e criador de gado em Campo Grande (MS).

O VIDENTE

Primeiro o menino viu uma estrela pousada nas
pétalas da noite
E foi contar para a turma.
A turma falou que o menino zoroava.
Logo o menino contou que viu o dia parado em cima
de uma lata
Igual que um pássaro pousado sobre uma pedra.
Ele disse: Dava a impressão que a lata amparava o dia.
A turma caçoou.
Mas o menino começou a apertar parafuso no vento.
A turma falou: Mas como você pode apertar parafuso
no vento
Se o vento nem tem organismo.
Mas o menino afirmou que o vento tinha organismo
E continuou a apertar parafuso no vento.



BARROS, Manoel. Tratado geral das grandezas do ínfimo. Rio
de Janeiro, Record, 2001. p. 25.

Manoel de Barros, dizia Drummond, é o maior poeta brasileiro vivo. Nascido em 1916, Manoel atravessou sua infância em Corumbá, no Estado do Pantanal, cidade marcada pela sua híbrida condição de entreposto portuário do Rio Paraguai e localidade fronteiriça a Porto Suarez, na Bolívia. Filho de um capataz de fazenda que se tornou fazendeiro, o guri fazedor de inutensílios crescerá em meio a bois, sinimbus, jacarés, sapos e outros seres poeticamente híbridos. Mais tarde, seguindo os dormentes sinuosos da estrada de ferro, desloca-se do Brasil Central rumo ao litoral e, no Rio de Janeiro, diploma-se em Direito, curso convencionalmente abraçado pelos jovens promissores da época. Passa, então, a deambular entre pueblos bolivianos e cineclubes e museus novaiorquinos, até decidir-se, com o firme apoio de sua esposa - filha de fazendeiros mineiros -, pelo assentamento em terras pantaneiras. O irrequieto poeta terminará por assumir a bucólica sina de cultivar, entre versos e gelados goles de tereré, a extensa propriedade rural paterna.

Marcado por uma infância e uma juventude vividas em universo semovente e antitético, o poeta das planícies inundáveis publicará Poemas Concebidos sem Pecado (1937), Face Imóvel (1942), Poesias (1956), Compêndio para Uso dos Pássaros (1960), Gramática Expositiva do Chão (1966), Matéria de Poesia (1970), Arranjos para Assobio (1980), Livro de Pré-Coisas (1985), O Guardador de Águas (1989), Poesia quase toda (coletânea, 1990), Concerto a céu aberto para Solos de Ave (1991), O Livro das Ignorãças (1993), Livro sobre Nada (1996), Retrato do Artista quando Coisa (1998), Exercícios de ser criança (1999), Ensaios Fotográficos (2000). O seu gosto pronunciado pela leitura de ensaios de filologia permeará imagens telúricas e esteadas em um ilogismo próprio de "crianças, loucos e poetas". Nesse universo poético, são abolidas as fronteiras entre os reinos vegetal, mineral e animal, assim como as estanques categorias gramaticais.

Conta a lenda que, de um encontro "fortuito" provocado pelo bardo das fronteiras líquidas, nasceu uma sólida amizade pessoal com Guimarães Rosa: ao saber que o "io bardo" do Grande Sertão participaria de um passeio fluvial em águas pantaneiras (corria o ano de 1947 e Sagarana arrebatava a intelligentsia tupiniquim), Barros, apesar de sua timidez natural, logrou subir na mesma embarcação; ao perceber João perscrutando o vôo das andorinhas rumo ao sol poente, Manoel acostou-se ao parapeito em que estava o velho Guima e lançou seu vaticínio: "...as andorinhas encurtam o dia..." Desse encontro memorável, a biblioteca deixada por Rosa e conservada pela USP guarda um testemunho: dois livros de Manoel de Barros entre Platões, Goethes e outros Plotinos. Também a poética de Joãozito poderá ser vista como uma chave para a leitura de Manoel em seus exercícios de ser criança.

Após ser agraciado com os Prêmios Nestlé e Ministério da Cultura, Barros receberá, agora, a merecida homenagem oficial da comunidade universitária, na forma do diploma de Doutoramento Honoris Causa. O título será outorgado pela Universidade Católica Dom Bosco, no dia 27 de outubro, em Campo Grande. A homenagem vem contemplar a intensa produção poética de Manoel de Barros e a longa lista de estudos críticos desenvolvidos em diversas universidades do país em torno dessa obra extremamente representativa da cultura do Brasil central.

[Fontes: Fundação Manoel de Barros e ucdb]

“O tema do poeta é sempre ele mesmo. Ele é um narcisista: expõe o mundo através dele mesmo. Ele quer ser o mundo, e pelas inquietações dele, desejos, esperanças, o mundo aparece. Através de sua essência, a essência do mundo consegue aparecer. O tema da minha poesia sou eu mesmo (...)”

(Entrevista concedida a André Luís Barros)

OBRAS:


Poemas concebidos sem pecado, (1937), Record, s.d.
Face Imóvel, 1942.
Poesia, 1956.
Compêndio para Uso dos Pássaros, (1960), Record, 1999.
Gramática Expositiva do Chão, (1966), Record, 1999.
Matéria de Poesia, Record, 1974.
Arranjos para Assobio, (1982), Record, 2002.
Livro de Pré Coisas, Record, 1985.
O Guardador das Águas, Record, 1989.
Concerto a Céu Aberto para Solos de Aves, Record, 1991.
Exercício de ser criança, Salamandra, 1999.
Ensaios fotográficos, Record, 2000.
Tratado geral das grandezas do ínfimo, Record, 2001.
Poeminhas Pescados Numa Fala de João, Record, 2001.
O fazedor de amanhecer, Salamandra, 2001.
Cantigas por um passarinho à toa, Record, 2003.
Memórias Inventadas: a Infância, Planeta do Brasil, 2003.
Livro Sobre Nada, (1996), Record, 2004.
Poemas rupestres, Record, 2004.
Memórias Inventadas: a Segunda Infância, Record, 2006.
O livro das Ignorãças, Record, s.d.
Retrato do artista quando coisa, Record, s.d.


 
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