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ANDRÉ CALAZANS

 

UM DIA - (André Calazans)

Foi num tempo em que era dádiva
ganhar mais um dia de vida.
E em todo final de noite
resignado se despedia,
mas nem assim desistia.

Na frieza das paredes rudes,
no vazio das pessoas paredes,
na parede das pessoas frias
conseguia sentir seu toque.

Um leve halo, emoção, o cativava,
e o arrastava até o seguinte,
com seu consequente dia-a-dia.

E assim ia,
apesar das paredes.

Homilia
de gente rude, sem rosto,
mas nem assim desistia.

DILÚVIO - (André Calazans)  

Água
que invade o peito.

Afoga, inunda,
recria ?

O prenúncio de uma nova fase,
o princípio de algum motivo.

A lâmina que nos talha
por dentro.

Estamos sós, vítimas
de um triste consenso.


MISTÉRIOS DOS CORPOS
- (André Calazans)

Lembranças
de um bosque,
uma casa.

No meio da noite,
madeiras rangendo
sob o peso de dois corpos,
agora tão distantes...

A dor lasciva e bela,
pura dor.

A vontade de se aprofundar
nos mistérios dos corpos.

Por incompetência,
alcanço
a diluente frustração...

 
CISÃO - (André Calazans)

Àquele que não é uno
resta a angústia do servo.
Perseguem-no ásperas
circunstâncias íntimas:
entalhes rígidos,
opostas tendências
e eterna luta trágica.
Divisões engendram
inúteis críticas póstumas.
Corre a vida
e multiplicam-se fantasmas
de todas as formas.

 
OUTRAS VOZES - (André Calazans)

A cada hesitante passo
no destino enciumado
sente-se a voz daqueles
que antes aqui pisaram.

Não guia, somente relata -
diluição em personagens ...

Também ouviram, sentiram ?
Tal herança é inevitável !

Um passado não vivido,
por sensações incorporado,
uma infinita identidade.

 

     
   
 
   

 
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