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JULIO NEVES PEREIRA

 

Julio Neves Pereira é mestre (PUC-SP), doutor em língua portuguesa (PUC-SP) e docente da pasta de lingüística da Universidade de Mogi das Cruzes.

 

Lavagem - (Julio Neves)

O pobre descia a rua e não sabia
Que descia para a caldeira de purificação.
Porque o pobre era preto e o dia era negro.
E porque, no fim da rua, o escuro era a cara da expurgação...
Que almeja um mundo submerso em detergente biodegradável,
Para promover a segurança de condomínio,
À qual, o pobre, que era negro declarado nas vestes da pele,
Em uma noite regada à detergente,
Jamais teria o direito.
Era tarde e o dia era preto, como roxo era o menino pobre
Que declinava torpe e indigente.
Era tarde para qualquer esclarecimento,
Já que a falta de clareza na pele o havia sentenciado à higiene.
Era tarde.
Mas era somente um miúdo.
Trajando, agora,
As marcas de uma limpidez exaurida.

 
Santo sacrilégio - (Julio Neves)
(1º lugar no concurso Erik Satie)

A santa entoa,
atormentada,
um hino estranho,
não consagrado.
Cálice tinto,
um torto santo,
na Santa casa,
embebedado.
Na ceia santa,
a santa e o santo,
o vinho e o corpo.
O mantra e a manta,
os véus rasgados,
tormenta frágil
entorna o vinho.
A luz brilhante
invade o altar ...
A santa ora,
o santo bebe,
os sinos tocam
Suave Maria.

Imersão - (Julio Neves)
(4º lugar no concurso Erik Satie)

Sentado sobre as águas do rio,
vê-se, pálido, um homem desaparecendo.
A deusa das águas e do cio,

sorri e caçoa:

- mais uma caça a caminho.

E o homem se debate nas águas do delírio.
Vai sumindo.
Deitado sob as águas das lembranças.
Vai minguando.
Mas a deusa:
- não faço nada por vingança.
Desencanta.
O sol, à beira do rio.
Vai surgindo...