| Lavagem
-
(Julio
Neves) O
pobre descia a rua e não sabia
Que
descia para a caldeira de purificação.
Porque
o pobre era preto e o dia era negro.
E
porque, no fim da rua, o escuro era a cara da expurgação...
Que
almeja um mundo submerso em detergente biodegradável,
Para
promover a segurança de condomínio,
À
qual, o pobre, que era negro declarado nas vestes da pele,
Em
uma noite regada à detergente,
Jamais
teria o direito.
Era
tarde e o dia era preto, como roxo era o menino pobre
Que
declinava torpe e indigente.
Era
tarde para qualquer esclarecimento,
Já
que a falta de clareza na pele o havia sentenciado à higiene.
Era
tarde.
Mas
era somente um miúdo.
Trajando,
agora,
As
marcas de uma limpidez exaurida. |
| Santo
sacrilégio
- (Julio
Neves)
(1º lugar no concurso
Erik Satie)
A santa entoa,
atormentada,
um hino estranho,
não consagrado.
Cálice tinto,
um torto santo,
na Santa casa,
embebedado.
Na ceia santa,
a santa e o santo,
o vinho e o corpo.
O mantra e a manta,
os véus rasgados,
tormenta frágil
entorna o vinho.
A luz brilhante
invade o altar ...
A santa ora,
o santo bebe,
os sinos tocam
Suave Maria. |
Imersão
-
(Julio
Neves)
(4º lugar no concurso Erik
Satie)
Sentado sobre as águas do rio,
vê-se, pálido,
um homem desaparecendo.
A deusa das águas e do cio,
sorri e caçoa:
- mais uma caça a caminho.
E o homem se debate nas águas do delírio.
Vai sumindo.
Deitado sob as águas
das lembranças.
Vai minguando.
Mas a deusa:
- não faço
nada por vingança.
Desencanta.
O sol, à beira do
rio.
Vai surgindo... |