| O
príncipe menstruado -
(Fernanda
Pompeu)
Eram
três meninas. Denise, Fátima e Raquel. A tarde era
de um domingo medíocre e acalorado. A brincadeira, proposta
por Fátima, consistia em representar uma cena teatral: o
momento em que o príncipe encantado beijava a bela adormecida,
acordando-a de um sono enfeitiçado para uma vida fausta em
castelos cuidados por serviçais fiéis; dentro de mantas
bordadas com fios de ouro e promessas principescas de amor, filhos
e paz.
Os papéis se repartiriam assim: Fátima, a irreverente,
seria a madrasta. Denise, a doce, a adormecida. Raquel, a ambígua,
o príncipe. Como não havia texto, elas conheciam de
cor o que fazer: a madrasta roeria as unhas de ódio; a bela
adormecida dormiria e o príncipe encantado se inclinaria
sobre os lábios da bela e a beijaria, a beijaria.
A falta de cenário não as incomodava, não havia
público. As três meninas se preocuparam apenas com
o figurino. A madrasta jogou um xale negro e imenso sobre os ombros,
a bela cobriu-se com uma camisola branca e Raquel manteve suas calças
compridas.
Começaram a atuar: Fátima soltou uma risada que ela
imaginava de bruxa má. Denise deitou-se no chão com
os olhos bem fechados, Raquel se inclinou e beijou-a na boca.
Então aconteceu: a língua de Raquel encontrou a língua
de Denise e o beijo revelou-se delicioso. Um beijo de língua
entre duas garotas de 11 anos.
O que Denise sentiu eu nunca soube. E passados trinta e poucos anos
jamais saberei. Sei que eu, a menina-príncipe, viajei. A
língua de Denise transformou-se em um tapete voador e me
transportou para muito longe daquele domingo recheado de adultos
neuróticos e poderosos, para além das montanhas do
Rio de Janeiro e do oceano Atlântico. Ah, aquela língua
conversava com a minha e me contava de tesouros possíveis.
- Já chega! Já chega! gritou Fátima, francamente
amuada.
Eu tive uma iluminação: - vamos repetir a cena, vamos
ensaiar até ficar bom.
Denise não disse nada. Tão somente me encarava com
seus olhos enormes, secretos, de amêndoa. Tudo o que eu queria,
com a convicção dos meus 11 anos, era voltar a beijá-la.
Seguimos com as línguas quando em um momento, eu senti que
algo saía de dentro do meu sexo, molhando a calcinha. Algo
que jamais havia sentido. Um fluxo indescritível.
Logo Fátima, a líder, cansou de ser bruxa e Denise,
a doce, se levantou. Fartas do teatrinho queriam outro jogo naquele
esmorecer domingueiro. Raquel se conformou, mas decidiu que não
brincaria de mais nada, mesmo porque sabia que as amigas iriam querer
brincar com bonecas. Raquel odiava bonecas, todas elas. Odiava as
bonecas que traziam um sorriso congelado, as que traziam um beicinho
congelado, as que eram meninas, as que eram meninos. Para ela, bonecas
pareciam crianças mortas.
Por fim as amigas se foram e Raquel foi pesquisar-se no banheiro.
Então vi na calcinha o sangue. Inaugural. Eu estava menstruando.
Assim como minha mãe, minha tia, minha irmã mais velha.
Eu senti tentáculos apertando a garganta: acabou-se a infância,
chorei.
A mãe disse - agora você é uma mocinha.
A tia falou - não poderá mais subir nas árvores
A irmã escarneceu - você vai sentir como é chato.
A mãe explicou como colocar o absorvente. E prometeu que
contaria para o pai. Depois ele não disse nada. Esse assunto
não era para homens.
Na segunda-feira, na saída do colégio, Raquel contou
a novidade para as duas amigas. Denise sorriu e Fátima disse
? você tem que disfarçar bem o modess para os meninos
não perceberem.
No mês seguinte à primeira menstruação,
o corpo de Raquel explodiu, cresceu para todos os lados. Seus peitinhos
já pressionavam a blusa escolar. Acabados de nascer já
vicejavam.
Foi nesse momento que eu descobri o significado da palavra esconder.
Eu precisava esconder a menstruação, esconder dois
incômodos seios. Esconder o novo corpo de mulher na recente
menina. Ah, como era árido ser feminina. E no meio dessas
estranhas transformações eu guardava a lembrança
da língua da Denise. A memória daquela boca.
Em um outro domingo, em uma outra tarde, Raquel e Denise foram de
mãos dadas até a padaria da esquina. A mão
de Raquel suava emoção na mão de Denise. Entraram
pela milésima vez na mesma padaria “A Tijucana”.
E aconteceu: o balconista se aproximou, direto, e tocou os pequenos
seios de Raquel. Melhor, apertou-os. Ela não sentiu nenhuma
excitação, sentiu-se uma coisa. Ou no melhor dos casos,
sentiu-se um pãozinho francês apalpado pelo balconista.
Denise se salvou. Denise ainda não tinha seios.
Por que cabia a mim tê-los?
No entanto o pior, que era o interdito, ainda estava por vir. A
verdade é que ter seios significava ter que cobri-los. Não
mais andar sem camisa.
Raquel montou na bicicleta. Sua mãe advertiu - agora você
tem que sair de blusa! Sim, sim Raquel queria apenas se despedir.
Ela, então, foi para sua derradeira volta de bicicleta com
o torso desnudo. E lágrimas escorriam dos olhos para os lábios.
Pela última vez permitiu que o vento escrevesse poemas em
sua pele nua.
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